sexta-feira, 30 de junho de 2017

DO CHEIRO DAS COISAS (2)

A pitangueira, não sei se alguém já notou, tem nas folhas o odor da fruta: a pitanga.

A percepção do olfato é o que chamamos de cheiro. É assim: o olfato percebeu é cheiro. Quando é odor parece que está mais para catinga. Não? Tudo bem.

Não na Bahia e Nordeste que cheiro é beijo.

- Jonas meu filho como vai?

- Bem mãinha.

- Precisa voltar logo.

- Sim, é verdade, mas o trabalho está demais. Aliás, estão me chamando, ligo depois.

- Vá lá meu filho, vá lá. Cheiro!

- Cheiro mãinha.

O cheiro é fundamental para algumas espécies onde o macho localiza a fêmea. Não só a fêmea, os inimigos e a caça também. Bastante típico dos animais carnívoros.

Fundamental!

As flores pelo cheiro que produzem atraem os insetos que permitirão a sua fecundação. Pássaros, borboletas, abelhas transportam o pólen de uma para outra flor levando a vida adiante.

O cheiro do filho.

No mundo animal as mães reconhecem seus filhotes pelo cheiro, na maioria das vezes. Entre nós humanos é uma característica que não foi desenvolvida; mesmo porque, nós somos a única espécie onde os filhotes são inteiramente dependentes dos pais. Seria uma diferença perigosa se vivêssemos isolados. Ainda assim, já ouvi minha mulher dizendo do cheiro dos nossos filhos. O particular cheiro de um e de outro. Acredito que as mães, no nosso caso, tem alguma memória olfativa em relação aos filhos. Minha filha tem também esta memória de sua filha, minha neta. Acredito que para nós, os homens, é sempre um cheiro bom de criança ainda que seja impossível dizer de olhos fechados: “Este cheiro é de um filho meu!”.

Nunca!


quinta-feira, 29 de junho de 2017

O BESOURO ROLA-BOSTA (2)

O besouro rola-bosta é o tal. O tal que vira bosta. E o faz com agilidade e destreza. Faz a tempo, na hora certa. Seu trabalho traz alimentos para os filhos; as fêmeas fazem bolinhas, quase do seu tamanho, e colocam os ovos dentro enterrando em seguida. Será o primeiro alimento dos filhotes. Coprófagos, são estes insetos que se alimentam de fezes. Isso mesmo, os besouros “rola-bosta” comem fezes! Vivem de excrementos de mamíferos herbívoros.

A perfeita organização colocada no mundo permite que nos espantemos com estes pequenos insetos e suas preferências alimentares. Nada foi colocado ao acaso por aqui. O criador destas maravilhas andou pensando em tudo. Acredito que ele não pensou muito quando colocou o homem no meio desta maravilha. Vai ver, estava distraído com alguma borboleta multicolorida que tenha criado e distraiu-se na espécie humana.

Falha imperdoável Senhor!

Toda a fauna e flora tem entre si alguma relação de sobrevivência. Interagem de forma organizada. Assim foi feito!

Minha atenção se voltou para este escaravelho em virtude de ter tido a oportunidade de vê-lo trabalhando.

Se aproveitássemos o que nos é oferecido com humildade e tenacidade, teríamos todo o necessário para viver. Mas não, não é assim e, pior, não aceitamos. Queremos mais e mais. É o consumismo sem finalidade. Tenho um pequeno pensamento que identifica esta situação: “Estamos chegando ao ponto de transformar a futilidade em necessidade básica”.

Minha reverência ao besouro rola-bosta, que sabe a que veio.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

ALÉM DA D.R. (Discutir a relação).(2)

O ranço que fica da relação que se estraga é triste quando não é catastrófico.

Pesado? (O tal do catastrófico)

Não, não é!

Procure não navegar por este caminho, fuja dele, esconjure, pragueje, mas escape deste momento. Trabalhe para não ter de enfrentá-lo.

Ser polido pode ajudar em uma relação estremecida, mas soa falso.

Polido esta mais para o resultado que se encontra após o uso de uma pasta de calçados e situações muito delicadas e, neste caso, o momento está muito mais para além de estremecido. O ranço está mais para comida estragada, ninguém mais come. Melhor ser sempre educado. Educação é o diferencial nas relações. O conflito emerge da falta desta formação. É verdade que dependendo da circunstância, quem tem, às vezes perde. Momento em que se perde a posição e, vai-se ao encontro do nível abaixo.

Formal... Seria assim o caminho para esta separação: formal. O formal é mais ou menos como a água: insípida, inodora e incolor.

Assim é o formal!

Você vai de bom dia, boa noite, obrigado! Percebe? O formal não machuca e ajuda a atravessar esta estrada que se tomou. Seria preferível que não se precisasse usá-lo.

Já que não consigo explicar de forma bastante objetiva, vou despejar três neologismos (Acredito que sejam) definitivos para o assunto:

Machucatoso, dolorente, chorosivo.

Já pensou!!!


terça-feira, 27 de junho de 2017

UM SONETO AO AMOR (2)

Eu vi teu vulto além de um véu diáfano,
além dos sonhos que eu tinha então.
Foi como deusa que me apareceste
atormentando a eterna solidão.

E hoje sofro um mal que não sofria
um sofrimento que nunca pedi,
órfão do amor eu era; mas não via
as tantas coisas que ao te ver eu vi.

E vi na vida um canto de alegria
algo distante da misantropia
que me ofertava até com gratidão.

Se descobri o amor nesta existência
prive-me agora desta abstinência
que o meu pavor se chama solidão.




segunda-feira, 26 de junho de 2017

SACRIFÍCIO (2)

Num esforço sobre-humano, como humano,
embora fosse Deus,
embora fosse a perpetuidade,
embora vivesse a matéria,
era a eterna imaterialidade.

E de Trino e Uno ao mesmo tempo
aqui se substantificou,
vivendo em si as leis que ensinava,
sendo Ele a prova, enfim, do que ensinou.

E a mediocridade e a sordidez que viu,
que a sua onisciência conhecia,
fez com que viesse ao presente.
Transformou-Se, tornou-Se homem,
mas não foi visto como queria.


domingo, 25 de junho de 2017

NO CONSULTÓRIO (2)

Com uma dor na altura do pescoço, procurei um otorrinolaringologista. Pelo nome o médico tem que ser bom! É muito nome para uma única especialidade.

Diga aí: otorrinolaringologista. Disse? Certo que às vezes engasgamos ao dizer.

Fui atendido por uma simpática secretária e me acomodei na esperança de ser atendido dentro do horário marcado.

Como em todo consultório ocorrem diversas conversas paralelas. Um zum zum zum constante. Éramos em torno de 12 pessoas acomodadas na sala de espera. Como é habitual, nos dias de hoje, a maioria estava com seu celular em mãos; alguns folheavam as revistas cansadas de serem lidas; outros conversavam.

Pude ouvir a fala de uma senhora ao meu lado no telefone:

- Minha filha, coloque mais cebola.

...

- Não coloque muito sal.

...

- É que seu pai já tem pressão alta, por esta razão é bom evitar.

...

- É isto mesmo, deixe vinte minutos no forno.

...

- Então está bem filha. Vamos chegar por volta das sete horas.

...

- Beijo.

Ela se vira para o senhor ao seu lado e diz:

- Querido, vamos comer uma bacalhoada no jantar.

Meu estomago começou a dar sinal de vida, minha boca salivando.

Na fileira da frente um moço, de uns 35 anos no máximo, falava ao telefone com as mãos sobre a boca. Não sei se era para não escutarmos a conversa ou para o seu interlocutor ouvir melhor. A conversa estava séria:

- Protesta!

...

- Não interessa conta vencida vai para o protesto!

...

- Não importa se é seu amigo, não pagou que pague no protesto!

...

- Está bem, vou esperar mais o dia de hoje, amanhã de manhã, proteste o título!

...

- Oh! Ok! Quando chegar por aí conversamos.

Murmurou qualquer coisa após desligar. Parecia muito contrariado. Sem querer estar interessado na vida de ninguém, podemos ver e sentir pedaços da vida de algumas pessoas ao nosso redor.

Todos ali, pela mesma razão, por causa de alguma doença, algum mal e, nem assim a vida para. A Terra continua a girar. A cada dia nascem meninos e meninas; a cada dia morrem homens e mulheres. Como administrar este vendaval de sentimentos e situações; como encontrar o ponto de equilíbrio em certas mazelas que nos são apresentadas? Acredito que Deus é a solução. Entregar de forma completa a nossa vida nas mãos do Criador e brigarmos valentemente por nossa vida. Bem que se diz: “Faça de sua parte que Te ajudarei”. Nossa parte tem que ser feita para esperarmos uma graça, uma benção. Milagres não acontecem do nada. Precisamos, pelo menos, pedir.

Estou perdido nestes pensamentos quando ouço o meu nome sendo chamado. A caminho da minha consulta peço: ”Meu Deus, me ajude neste momento!”.

Pedi!


sábado, 24 de junho de 2017

ESCADA (2)

As escadas servem de forma bastante simples para nos movermos para locais em alturas diferentes. Temos as escadarias em locais com muita inclinação, dentro de edifícios e, claro, as escadas móveis que nos ajudam em um sem fim de afazeres.

A expressão escada no sentido daquele que serve apenas para que alcancemos posições mais elevadas ou nos destaquemos é representada muito bem no ofício nas artes circenses. O palhaço principal trabalha com outro que tem a finalidade de “escada”. O “escada” é secundário, mas essencial no desenrolar de uma cena.

Usando esta analogia, existem no circo, cinema e teatro o personagem que é o “escada”. Aquele que ajuda o ator principal a desenvolver o seu papel. Na vida real também temos os “escadas”.

Alguns sabem que são; outros serão eleitos escadas.

É o caso daquele funcionário que domina todas as informações da seção e cujo crédito funcional vai para o chefe que não entende bulhufas.

- Isaurinha, você já preparou o processo da Cia Josteiner?

- Ainda não Sr Armando, estou com quatro processos comigo, ainda não tive tempo.

- Acontece que a Diretoria vai me "comer o figo" se não entregarmos a conclusão deste assunto ainda hoje.

- É que não tem ninguém me ajudando.

- Sei da sua competência e espero que você me entregue até o final da tarde.

Isaurinha sempre foi escada, elevador e rampa de acesso.

Este é um cenário que muitos conhecem Alguns como chefe, a maioria como o que entende. Realidade absurda da corrompida organização em que vivemos.

Dizem que todos somos iguais, mas na verdade, alguns são mais iguais que outros e ponto final.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

CÉU DE MÁGOAS (2)

Nuvens taciturnas, carregadas,
plúmbeas,
num céu afogado de mágoas.
Pardacentas, vagarosas e sem rumo,
indecisas
deixam o ar elétrico, fosfórico,
ameaçador.
Guerreiras com suas armaduras pesadas,
num céu afogado em mágoas,
vão se juntando, trovejando, iradas,
revoltadas.
E o vasto cenário da batalha
se encontra bem no centro
de um céu afogado em mágoas.
Que dor!


quinta-feira, 22 de junho de 2017

METEOROLOGIA (2)

“É um daqueles dias em que estou mais para calmaria do que para tempestade.”

Atrás e acima do canavial que era cortado pela estrada era possível ver uma nuvem marrom se elevando aos céus. Era pó que não acabava mais. Acima, as nuvens estavam carregadas e pretas.

Vem vindo temporal por aí!

Todos estavam atentos e procuravam chegar o mais rápido ao seu destino. Parece que vai ser um temporal daqueles.

Como diria a Maju na sua fala meteorológica: “São nuvens vindas de uma zona de turbulência, um sistema de alta pressão, resultado de ventos divergentes que se deslocam em oposição à rotação da terra. Temos ainda uma zona de convergência intertropical, as conhecidas ZCIT, influências diretas das chuvas da região Nordeste. Estamos com informações negativas das camadas de ozônio. Nada bom!
Rajadas de vento para as regiões oeste de Santa Catarina e Paraná. Na região litorânea Sul, a atenção deve ficar para ondas de até 3 metros em função de sistemas de baixa pressão atmosférica que se desenvolve por ali. A umidade do ar, de certa forma, se apresenta boa em virtude das chuvas que tem caído por todo o País.”

Como saberíamos disto!

Essa parafernália descritiva, independente da graça da apresentadora, Maju, pode ser resumida em algo descomplicado: é apenas um toró! Vem água aí!

Só isto!

Obs.: A descrição meteorológica descrita acima está por minha conta. Não acreditem!!!



quarta-feira, 21 de junho de 2017

SONETO A DERROTA (2)

Escravo agora sou deste amargor
que me entorpece os membros já cansados
perdi batalhas eu batalhador
fiz, dos meus sonhos, sonhos mutilados.

E me algemo, agora a praguejar,
nestas batalhas que perdi então
profundamente dói o recordar
amargo o gosto da recordação

Que o meu exemplo não seja seguido
porque não fui assim tão destemido
nem nas batalhas fui tão estupendo

e, choro como se chorasse um morto
pois desta vida eu próprio me aborto
embora vivo, insisto estar morrendo.


terça-feira, 20 de junho de 2017

DAS ARTES EM GERAL (2)

A necessidade do aplauso para o artista é como o combustível para uma máquina. Não só para o artista, mas para todo aquele que necessita da imagem veiculada. É a mídia elevando o grau de visibilidade e conceituação. No aplauso está o termômetro medindo a escala do sucesso ou não.

Para nós que escrevemos também. Do momento em que colocamos os nossos escritos para visualização, estamos buscando uma resposta para o trabalho realizado. Um feedback qualquer, assim como se fosse a aceitação do que fizemos. É interessante notar neste caminho que o retorno ao que escrevemos vai, muitas vezes, em caminho diverso daquele que entendemos. Explico-me. Determinada poesia ou texto que escrevemos não nos agrada por qualquer razão ou, não está dentro do perfil do que escrevemos normalmente e, publicado, tem um retorno inesperado: agrada, traz comentários, agita. Aí nos sentimos péssimos analistas. Percebi que a mensagem que passamos estará, muitas vezes, conectada a algumas pessoas de alguma forma. Traz conforto, alegria, Paz. Estou aprendendo a expor alguns textos onde não existe o acabamento (No sentido da ideia.) que, na minha despretensiosa condição de escrever, gostaria que tivesse. É, nestes casos, como uma loteria literária. Nunca será meu hábito, sempre evitarei este caminho.

Estou buscando entender de forma mais precisa o desenvolvimento e a evolução dos meus textos.

A respeito do aplauso escrevi este pensamento abaixo há alguns anos.

NECESSÁRIO

"Todo artista é um tolo que necessita de aplauso e assim, faz com que o aplauso seja para si."


segunda-feira, 19 de junho de 2017

NA IDADE EM QUE ESTOU (2)

O entendimento da minha idade hoje, não bate com o que eu sentia em relação a uma pessoa de 70 anos (71 Para ser preciso) quando mais moço. Nada como estar no lugar da pessoa julgada, já tendo julgado a circunstância para verificar.

- Hei vovô!

Era assim que dizíamos a uma pessoa nas alturas dos setenta anos. Exatamente isto!

Hoje o comentário esta mais para: “Tio”.

É bem verdade que as condições de vida melhoraram muito para todos. A expectativa de vida está na casa dos 75 anos. Tantos os homens como, principalmente, as mulheres tem condições de manter uma aparência saudável e jovial.

Acredito que a condição melhorada de vida, retardando a aparência da idade que chega (Velhice), não tira de nós a obrigação de mantermos uma atitude coerente com a faixa etária onde estamos. É quase lamentável quando vemos pessoas nesta idade tentando viver o que já viveu. Não tem como! Melhor será viver a idade que temos com a renovada aparência, mais jovial, porém dentro do nosso tempo. Dentro da nossa melhor idade. Coerente e adequado.

Ainda assim, tenho comigo a necessidade de não parar as minhas atividades que são a minha bateria e o meu combustível. Quanto à discriminação da faixa etária em que estou, desconhecem os que discriminam, a minha ideia colocada em um texto há algum tempo:

“Os sonhos que carrego não cabem na cabeça de um velho.“


sábado, 17 de junho de 2017

DESPEDIDA (2)

Quando se perde alguém o que fica, o que acontece? O que fica depende do que se viveu e o que acontece é uma despedida. De fato, uma perda envolve uma despedida.

Quando perdemos alguém, o que fica é o que deve ficar. Não será possível, neste momento, mudarmos o que já passou. Poderá ser bom ou ruim e isto dependerá de como compartilhamos a nossa vida com quem se foi. Este sentimento será o resultado do que vivemos em relação àquele que perdemos.

A dor de qualquer perda existirá, o que não deve ficar é culpa em relação a quem parte. Aí é péssimo! É imprescindível notar que a dor é inversamente proporcional ao bom relacionamento que existiu. Quanto mais se amou mais dor causará.

O sentido de vida correto não deverá deixar o sofrimento nos corroer mesmo sabendo que toda despedida é dolorida.

Se for necessário viver melhor então vou viver melhor. É sempre mais interessante perder em paz consigo do que guardando remorsos imperdoáveis.

Nossa sensação será assim então, é melhor que estejamos em paz. Este desenlace em vida ou por morte tem seu nome: despedida.

A tranquilidade deveria estar presente no momento da despedida.
Sabemos como isto é difícil. Saudade é o que deve ficar em qualquer despedida, esta agradável sensação após uma separação. Nem sempre é desta maneira.

Perder um pai, um irmão, um amigo é consequência da vida.

Filho não! Está fora da ordem natural. Assim mesmo... Acontece! É uma despedida triste.

Uma despedida é mais que um até logo. É muito mais. É um momento de distanciamento que pode ser ou não definitivo.
É uma separação. Um rompimento mesmo que momentâneo.
Atente para estar sempre em dia com os seus relacionamentos, qualquer que seja: comercial, entre amigos, amoroso, não importa. O que importa é estar bem.

Não permita que o arrependimento venha estragar seus dias no futuro. Sim, porque você não vai conseguir se despedir da sensação desagradável que perdurará enquanto viver.

Isto sim será ruim!


sexta-feira, 16 de junho de 2017

A DESCONFIANÇA (2)

Não sei se é pelo que já vivemos e pelos absurdos mostrados todos os dias, a desconfiança tornou-se um instrumento de defesa bastante atuante. Como se diz: “Gato escaldado com água quente, tem medo de água fria”. É assim!

Até para ajudar alguém, ficamos sempre com um pé atrás. Será o inimigo?

Seria longa a comparação entre as situações de época, mesmo porque elas se dão em tempos muito diferentes. É verdade que poucos viveram por este período maravilhoso deste nosso País. Estou falando de 1953 com meus oito anos.

Minhas lembranças me levam ao tempo em que íamos a pé, andando por cinco ou seis quarteirões sem pensar em ladrões, bandidos, drogados apenas, aproveitando o passeio até a praça central de Avaré-SP, onde morávamos.

Meu pai e minha mãe nos levavam nesta praça, aos Domingos, local onde havia um espelho de água com chafariz e holofotes que criavam reflexos nas gotas. Sentávamos na beira da fonte que era para mim, naquela idade, bastante grande. Lembro-me de ficar tentando pegar os girinos (Filhotes de sapo, rã ou perereca). A fonte tinha muitos e era diversão para a molecada. Meu pai e minha mãe andavam um pouco em torno do passeio que rodeava aquele espelho d’água e depois se sentavam apreciando. Eram muitas pessoas naquele começo de noite passeando por ali, o ponto de encontro de namorados, o que se chamava de footing (Em Inglês: ir a pé), onde as meninas desfilavam com sua melhor roupa passeando ao redor da praça e os meninos paqueravam sorrindo ou piscando.

Totalmente brega dirão todos nos dias de hoje. Sim é verdade, fora de época. Que pena!

Antes de voltarmos para casa, era sagrada uma parada em uma lanchonete para um lanche popular naquele tempo, chamávamos de “bauru”, era um filão com um bife competente, queijo e tomate. Sempre acompanhado de um refrigerante. Era tudo de bom!

Éramos mais ingênuos e assim, mais felizes. A desconfiança mencionada aqui levaria anos para entendermos o seu significado.
Muitos anos.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

O HOMEM COMUM (2)

Sou o homem comum
que sofre e continua...
Cuja cor é a do sol,
cuja vida é a luta.

Sou o lavrador cansado,
porém incansável.
Tenho o espírito da vida
e as mãos grossas.

Sou eu a própria roça
sou o milho e o café
sou a soja e o algodão
Sou João ou sou José.

Sim, eu sou comum.
Comum do trabalho
comum à lavoura,
como um ente explorado.

Sou irmão do cavalo
amigo do boi
meu braço é o arado
meu céu é este chão.

Sou o homem comum
que me planto aqui,
tentando, sempre tentando,
me enraizar e viver.

Sou o homem que pede
chuva em certos dias
e, em outros não,
deixando Deus meio louco.

Sou mesmo é um caipira,
sem valor nenhum
que alimenta este mundo,
a este mundo comum.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

MOMENTOS DE DÚVIDA (2)

De que servirá esta alma
que dentro de mim lateja
que minha carne esquarteja
embora pareça calma?

Alma e carne em desconforto,
as duas se contrariando,
O corpo em vida diz: "Mando!"
E a alma responde: "E morto?"

Opostos que não se atraem,
que vivem sempre assim, em
horripilante batalha.

- Serei alma ou sou matéria?
Minha carne é deletéria
e minh'alma é de um canalha.


terça-feira, 13 de junho de 2017

PERDÃO (2)

Difícil pedir para alguns. Difícil de aceitar para outros.

Óticas diferentes para o mesmo assunto. A verdade é que não deveríamos permitir a necessidade de usar este pedido: o do “perdão”. Penso que seja impossível alguém não ter tido, em algum momento de sua vida, a necessidade de pedir perdão a alguém. É, é impossível! Se existiu, foi santo (a). Certo que, para a maioria de nós, temos diariamente um pedido de perdão a fazer. É bom notar que perdão está em uma escala de valor muito acima da desculpa.

Muito acima!

Desculpa se pede por derramar o café na mesa, pela toalha jogada no chão do banheiro, pela porta da geladeira aberta, pela luz deixada acesa fora de hora. Relembrando: a desculpa está classificada em grau bem inferior na escala de ofensas. Ela está mais para pequenos desastres diários.

Vamos ao pedido de perdão:

Solicito através deste requerimento o seu perdão. Abaixo assinado fulano de tal. Seria bom se assim fosse, estaria formalizado o pedido que deveria ser aceito com a rubrica do ofendido. Tudo legalizado em cartório com firma reconhecida. Perdão pedido e aceito sem possibilidade de reclamações posteriores. Seria a prova do pedido e, fundamental, a prova da aceitação. Quando a pessoa ofendida fosse lembrar-se do assunto, e isto acontece demais, o ofensor sacaria do seu documento de mágoa perdoada, de perdão aceito, pondo termo a um assunto que deveria estar esquecido visto que documentado.

Como não pensamos nisto antes? Como?

Sou um gênio!

Não, não sou, estou apenas “arranjando desculpas” para os meus pedidos de “perdões esquecidos”. Eles estão como em uma biblioteca sem bibliotecário (a), desarrumados e empoeirados pedindo para serem limpos. Interessante que coloquei as duas situações logo acima com a gravidade inerente a cada uma delas. Complicado!

Melhor seria não errar, mas como dizem: "Herrar é umano!”.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

SIMPLES ASSIM (2)

A chuva estava pesada fazia alguns dias. Era água que não acabava mais. Não me lembro de ter um Janeiro com tanta água. O solo já não conseguia absorver o excesso de chuva e as ruas estavam virando pequenos rios. Entre as calçadas, de um lado ao outro da rua, era água em muitos pontos da cidade; em alguns, já havia invasão dentro de algumas casas que tinham o terreno rebaixado. As enxurradas desciam com força dos pontos mais altos da cidade solapando a base de algumas árvores que já sentiam o estrago inclinando-se perigosamente. Alguém disse que uma ou duas já haviam caído no Bairro do Japonês. Nossa cidade era pequena e tinha as notícias espalhadas boca-a-boca rapidamente. Tudo era do conhecimento de todos.

- A casa do Alexandre está a ponto de cair – disse alguém.

- Tá brincando!

- Não é sério!

- O professor?

- É, ele mesmo! Estou indo lá para ver se posso ajudar.

- Vou também!

Em frente à casa do Alexandre havia pelo menos 30 pessoas ajudando a tirar os móveis e eletrodomésticos. Era um pequeno formigueiro trabalhando rapidamente. Percebia-se a inclinação do telhado. Havia um pequeno córrego nos fundos que, neste momento, era um rio raivoso e predador. O pequeno depósito que havia no quintal já havia sido levado pela correnteza e, parte da cozinha perdera uma das paredes. Ainda bem que vizinhos, amigos e passantes se envolveram e retiraram quase tudo que tinha valor da casa. Um dos vizinhos ofereceu um cômodo para que colocassem tudo protegido. Menos mal, o emocional estava abalado, mas o material estava salvo.

Embora dentro de uma situação catastrófica, estavam seguros. A solidariedade estava presente.

Alexandre e Sílvia, sua esposa, estavam tentando acalmar a filhinha de sete anos, Claudinha, que chorava desesperadamente.

- A tinica mamãe, cadê a tinica?

Tinica era o nome da gatinha que Alexandre e a esposa haviam dado no aniversário de seis anos para Claudinha. “Meu Deus, - pensou Alexandre - a tinica dormia no depósito que fora arrastado pela água”. Saiu perguntando para um e outro se não haviam visto a gatinha. Nada, nenhuma informação. Perguntaria aos dois vizinhos onde a gatinha já havia estado. Quem sabe? Nada também!

Começou uma gritaria na lateral da casa:

- Aquele menino vai cair e ser arrastado pela água, precisamos fazer alguma coisa!

- O quê se pode fazer?

- Está um pouco longe para alcançar, talvez uma corda.

O menino era o Serginho, vizinho e amigo da Claudinha. Tinha oito anos, mas era destas crianças resolvidas e ativas. Havia visto o gatinho e correu para pegá-lo. A água subia rapidamente e ele percebendo que poderia ser arrastado subiu na mangueira que havia nos fundos da casa do professor Alexandre; sempre com o gatinho a tiracolo. Ficou em um galho acima da correnteza segurando firmemente. É fácil imaginar a situação. Os pais do Serginho, neste momento, estavam desesperados. A água batia firme na base da mangueira e o medo de todos era de que fosse arrastada. Como era uma árvore bastante velha, suportava com valentia.

Neste momento apareceram dois jovens fortes e destemidos com um pedaço de corda bastante forte. Um deles se lançou na água e nadou até a mangueira. Amarrou o Serginho que não desgrudava do gatinho e pediu que o puxassem. Torcida geral e, pronto, Serginho estava salvo. Tinica também. Palmas para os heróis.

Os pais de Serginho correram abraçar o filho, em seguida o professor, a esposa e Claudinha se aproximaram e ouviram o final da conversa:

- Serginho, que loucura foi esta, meu filho?

- Fui salvar a gatinha da Claudinha mãe.

- Isto foi muito perigoso!

- Tinha que salvar porque ela é minha amiga.

- Você precisa pensar no risco que correu e no susto que nos fez passar.

O menino responde com naturalidade:

- Ela me dá metade do seu lanche, todos os dias, sem pensar.


sábado, 10 de junho de 2017

A EXPRESSÃO: BOM DIA! (2)

Alguém me dizia:

- Bom dia!

Muitas vezes respondi:

- Por quê?

E, posso garantir, fazia a cara que representasse muito bem a minha resposta: de pouco caso, desinteresse.

De vez em quando usei esta brincadeira que, dependendo da pessoa, não pegava muito bem. Outras ainda, mais chegadas, já usavam alguma expressão mais pesada como retorno da minha resposta que era, no mínimo, mal educada. Não sei de onde me veio esta ideia. Com certeza, me diverti muitas vezes com o inesperado com que muitas pessoas recebiam o meu “Por quê?”. No fundo era pura brincadeira da minha parte. Para algumas tive que perder um bom tempo me explicando.

- Bom dia!

Esta duas palavrinhas que podem mudar o dia de uma pessoa. Pode mudar de forma radical o que começou péssimo: o dia de hoje. Pode trazer um pouco de esperança: será um bom dia.

Que coisa mais gratuita e útil é esta: bom dia!

Traz sempre consigo um sorriso, pois quem diz deseja o melhor e, fatalmente, retorna um sorriso também. Quem recebe deveria receber como uma benção. Acredito que seja! Não, não acredito, tenho certeza. Temos muitas palavras que deveriam ser usadas constantemente, todo dia, a toda hora. Estas duas, penso que sejam as principais, começam o nosso dia.

Assim sendo desejo a você:

- Um bom dia!


sexta-feira, 9 de junho de 2017

O PRESENTE (2)

Olhava em volta e via a bagunça generalizada. Só não se lembrava da razão da festa. Sobre a mesa uma garrafa de vinho especial que alguém trouxera da Espanha. Espanha ou Portugal? Só lendo o rótulo na garrafa que não era visível naquela distância. Sem angústia ou stress. Está visível que o vinho se foi então, pra que saber a procedência. Garrafas, copos, pratos com restos de alimentos era o que se podia ver do ponto em que estava. Tinha um prato com queijos ao seu lado, apossou-se de um pequeno garfo e começou a mastigar um daqueles pequenos cubos enquanto olhava o cenário que estava a sua frente. Estava no estágio daquele que bebeu um pouco, mas não perdeu a noção geral. Sim, estava um pouco alterado, naquela alteração onde os sentidos não estão de todo desconectados, apenas levemente alcoolizados.

Seus pensamentos estavam em: “Para onde foi todo mundo?” Perguntava-se quando chegam sua mulher e os dois filhos.

- Onde vocês estavam?

- Fomos levar os seus pais em casa querido, – Responde a esposa – você estava cochilando tão tranquilo que preferimos não acordá-lo.

- Eu estava dormindo?

- Estava!

- Seu pai ficou muito feliz com a festa surpresa pelo aniversário dele.

- É verdade, foi uma bela festa.

- O relógio que você deu de presente o deixou muito feliz. – Disse a esposa acrescentando – Meninos, vamos dormir que esta tarde!

Nada iria tirá-lo daquele lugar agora, lembrava-se do que escutou de seu pai no momento em que lhe entregou o relógio:

- Meu filho, um relógio será muito importante para mim, pois tenho que usar todo o tempo que me resta para aproveitar a vida e mais, vivê-la plenamente. Estarei marcando cada hora, minuto e segundo com esta intenção. Seu presente me trouxe esta urgência: aproveitar a vida. Muito obrigado!

Ele amanheceu naquele mesmo lugar pensando nas palavras do pai, na urgência do pai: aproveitar a vida. Percebeu que sua vida necessitava de um relógio que lhe trouxesse a urgência de bem viver.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

VAZIO (2)

Quando tudo se perde, se esvai, 
o amor, a alegria, a paz,
o que fica a preencher a vida
se a vida não se preenche mais?

O zelo pelo nome? o amor
próprio? Certo só isso traz
sentido por tudo isso
que a vida não preenche mais.

Perdido o senso e o rumo
andando, mas só para trás
a vida que não preenchi,
jamais preencherei, jamais!


quarta-feira, 7 de junho de 2017

TUDO A SEU TEMPO (2)

Vento:

que traz reclamações das folhas que caem no início do Outono,

que informa do aumento da aids,

que diz da raiva vegetativa que assola o mundo contra os políticos,

que vem com uma prosa tola sobre a virada do século,

que andou soprando umas velas no Cabo da Boa Esperança,

que balançou as folhas do coqueiro,

que reclamou das suas clonagens nos ventiladores e, pior, das salas refrigeradas,

que alterou o rumo da flecha que acenderia a tocha olímpica,

que, na sua trajetória de furacão, envelhece em brisa e refresca.


terça-feira, 6 de junho de 2017

OBJETIVOS (2)

Forçamos os nossos passos
que é necessário encontrar
os braços que os nossos braços
querem pra sempre abraçar.

E quando encontramos, temos
que neste abraço sentir
no mundo em que vivemos
razão para prosseguir.

Assim foi que enxerguei
e nos seus braços achei
razão para o meu viver.

Sem os seu braços, querida,
A morte é melhor que a vida.
- Perdê-los? - Melhor morrer.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

GRILHÕES (2)

Cativo da esperança.
arregaço as mangas por esta quimera
e vou batalhando nesta longa espera,
calvário que em vida não se alcança.

Onde estará meu Gólgota,
que com minha vista, avistar não pude?
Que o mesmo cirineu que Te ajudou me ajude,
pois fiz de mim mesmo, um déspota.

E vejo que só a morte traz
o descanso afinal que se esperou.
De onde vim não sei. Nem pra onde vou.
Que seja apenas um lugar de Paz!


sábado, 3 de junho de 2017

RESPOSTAS (2)

Deus! É o grito desesperado do ímpio,
Quando a luz do mundo se apaga.
Deus! É o grito - nove meses retido - do bebê que nasce.
Deus! É o grito da multidão faminta.
Deus! É o grito da mãe aflita.
Deus! É o grito - inaudível - da semente que rompe a casca.
Deus! É o grito do pássaro abatido.
Deus! É o grito das águas caindo em cachoeiras.
- Meu Deus! - grito eu - por que sendo tão barulhento,
És tão pouco notado?


sexta-feira, 2 de junho de 2017

SEM MEDIDA (2)

Sem medida esta saudade,
Sem formato e sem tamanho,
Somente a saudade doída
Doida saudade que tenho
Do tempo que em minha vida
Fui o grande aventureiro.
Desbravava formigueiro
Em busca de uma rainha
Para ser seu escudeiro
E ela fosse só minha.
E abria enorme cratera
Que virava uma trincheira
Ou toca de alguma fera.
Por vezes só me servia
Para arranjar um enguiço:
- Tampa esse furo já, já,
Veja que belo serviço,
Ou tampa ou vai apanhar!
Saudade do meu quintal,
Estranho mundo encantado.
Daquela mangueira enorme
Que hoje cansada dorme
A sonhar tal como eu,
Com o menino travesso.
Esta saudade danada
Despertando o que morreu.
Mora em mim esta mangueira,
Este menino sou eu.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

DESTINO (2)

Com um disfarce de homem
Todo poeta se faz anjo.
Embora um anjo penado,
Também eu faço poesia.
Cantando amores perdidos
Que um anjo penado tem.
Sou um anjo depenado
Cantando para ninguém.