domingo, 21 de maio de 2017

ANÚNCIO DE JORNAL (2)

Pede-se a quem encontrou
documentos de fulano
que os guarde bem escondidos
que fulano não os quer.

Fulano, quer ser sicrano.
Incógnito. De uma vez!
Sem foto nem documento
sem impressão digital.

E a quem os encontrou pede:
guarde-os, assim como guarda
a lembrança de alguém morto,
que será gratificado.

Mas que jamais o procurem
que fulano não os quer.

Procurem outro qualquer.


sábado, 20 de maio de 2017

DAS ARTES (2)

Para meu gosto,

As penas dos anjos

Que ficam nas catedrais

- frias e silenciosas -

Arrancaria para enfeitar-te.

Daria, então, vida

A estas penas mortas.

E os anjos, dentro das catedrais,

Sorririam da minha arte

Na arte morta dos murais.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

O QUE TE PERTENCE (2)

- Isto é meu!

Definitivamente, quase nada nos pertence. O objeto, o imóvel, o carro ficarão quando partimos desta para melhor. Serão sim, objetos de disputas e brigas na grande maioria das vezes. O que pode parecer um bem de valor nunca será seu. É assim provisório, temporal.

Somos na realidade prisioneiros daquilo que possuímos porque não entendemos, de fato, o valor das coisas neste Universo. A maior parte das pessoas é escrava do que têm. Estranho notar que para ter, temos que nos submeter ao “objeto”. Que laço triste e melancólico se cria na propriedade de um bem.

A liberdade de possuir pertence àquele que ultrapassou a barreira do material. O possuir sem comparar e sem disputas está enquanto o que temos, tem seu uso no valor específico da utilidade.

- Esta é minha casa!

Não tem que ser a melhor. Tem que ser usada da melhor maneira. Temos que ser felizes em nossas casas. Isto é possuir.

Na verdade o que nos pertence está localizado em nossa caixa craniana. É o que somos e como agimos. É comum usarmos o coração para acomodarmos determinados sentimentos. De forma bastante objetiva sabemos que está tudo partindo do cérebro. O que sem dúvida nos pertence é o que usamos a partir do nosso entendimento para nós mesmos e para os outros. Fazer a felicidade do outro é propriedade nossa e irá conosco quando partirmos deste mundo. É simples e complicado, mas não difícil de entender. A pessoa a quem você fazia feliz não terá mais a felicidade que você distribuía porque era sua a propriedade de torná-la feliz. Isto é propriedade.

A partir deste pensamento poderemos descobrir o que realmente é nossa propriedade.

O que te pertence?


quarta-feira, 17 de maio de 2017

CARNAVAL (2)

De fora do frege que rola na pista, assisto alguns momentos nos noticiários da TV. Como não achar bonito as escolas na avenida. Temas envolventes, históricos ou de homenagens, recheados com extremo luxo.

Os trabalhos para preparar uma escola, que chega a ter quatro mil participantes, não são para qualquer um. Tem que ter uma equipe fantástica, coordenada, azeitada e trabalhando. Carnaval tem data e hora.

Antes de tudo é necessário um samba enredo.

Quantos sonhos escondidos do que se vê na telinha ou ao vivo. Quantas esperanças. E a escola vai aparecendo com a apresentação da comissão de frente que inicia tudo. Logo a seguir as alas, cada uma com suas fantasias e coreografias próprias. Mestre-sala e porta-bandeira aparecem com o estandarte da escola. Ala das crianças, dos compositores. Rainha da bateria e a bateria. Ala dos passistas e das baianas. Velha guarda fecha o desfile com toda sua representatividade. No meio de tudo os carros alegóricos, alguns deles verdadeiras obras de arte. Vemos tudo pronto e funcionando.

Fico matutando sobre o assunto e lembrando as minhas histórias no Carnaval:

“Ô Abre alas que eu quero passar!”

Meu lado carnavalesco, se não me falha a memória, parou nos meus quinze ou dezesseis anos. Minha lembrança mais forte era do cheiro dos lança-perfumes que enchia o salão. A Rhodia fabricava o lança-perfume rhodouro que nós jogávamos sobre as meninas cantando:

“Confete, pedacinho colorido de saudade,

Ai, ai, ai, ai...
Ao te ver na fantasia que usei,
Confete, confesso que chorei...”.

Naqueles dias existia o corso que saia às ruas com carros e grupos de pessoas cantando e dançando durante o dia na prévia para o baile noturno.

No final do baile de carnaval que não queríamos que acabasse, vinha sempre àquela música:


“Tanto riso, ó quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão...”.

E nós, sentados no chão do salão, cansados e felizes, marcando onde nos encontrarmos para começar tudo de novo no outro dia. Do meu lado, suada como eu, a minha colombina daquela noite: Diana.

Em 1961 o então Presidente do Brasil, Jânio Quadros, proibiu o uso do lança-perfume e a sua comercialização. Embora a proibição fosse pelo uso indevido, ela trouxe também o fim de uma era.

O Carnaval brasileiro é a maior festa a céu aberto do Planeta. Fácil observar que tudo é superlativo.

É a aventura popular que mais resvala na luxúria explícita.


terça-feira, 16 de maio de 2017

APOLOGIA DESAPLICADA (2)

Nada, nada muda por aqui.
O Bar do Mineiro está como sempre foi:
Discreto, simples, confortável, aconchegante.
Quase particular.
Marcas nas suas paredes,
O tempo não deixa que não há espaço.
O espaço de tempo deste bar é caro.
Nos mesmos bancos as mesmas pessoas,
Clientes remidos,
Estabelecem-se fraternalmente.

Parte deste quadro nos sentamos a tagarelar
Com a importância que o fato merece.
Intercalando, vamos umidecendo as palavras que,
Úmidas, fluem melhor.

Mansamente as horas vão passando,
Gente vai passando...
Quem sabe, a crise não passa agora
Por esta velha calçada de ladrilhos e,
Todos nós,
Pulamos sobre esta infeliz.
Para não mata-la, nós a embebedaríamos.
Ébria, a crise entraria em crise e se acabaria.
Seríamos por consequência manchete:
“ÁLCOOL DE RIBEIRÃO PRETO ACABA COM A CRISE NO PAÍS.”

Temos que lutar pela não restauração deste trecho.
Restaurem o Pedro II,
A Matriz,
O que quiserem, mas preserve intacto este pedaço,
Indefinidamente, nas Segundas Feiras.
Somos aqui, acadêmicos sem fardão e,
Principalmente,
Mas muito principalmente,
Não tomamos chá.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

A VIAGEM (2)

Acredito que todos nós já nos preparamos para aquela viagem de férias. Sonho de um ano inteiro. Projetos e conversas sem fim para determinar aonde iremos. Tudo depende de uma organização bem elaborada para não acontecerem furos indesejáveis. Prepara-se um checklist detalhado. É todo um ritual com pouquíssimas variações entre qualquer um de nós. Verifica-se o custo de tudo para elaborar o orçamento e acomodar dentro das possibilidades do momento. Temos que deixar uma folga porque é de praxe, vamos estourar os cálculos feitos. Reserva na Pousada. Coisas assim!

Ah! As férias.

No final daquele ano, um mês antes das sonhadas férias, a filha mais nova teve um problema de saúde muito sério. Foi necessária uma internação de urgência. Toda a família estava em estado de alerta para as informações médicas.

Diagnósticos não eram os melhores... Seria necessária uma operação imediata para a confirmação. Neste momento o tempo congela, esta é a nossa sensação. Precisamos de uma resposta e o tempo não anda.

Orações e choros eram o que rodeava aquela família desorientada.

Fizeram uma viagem para dentro de si mesmos. Percorreram caminhos que eram desconhecidos, sinuosos e duvidosos.

Não foram a Pousada reservada, foram ao coração dos filhos e eles estiveram nos seus. Não conseguiram tomar aquela cerveja gelada, beberam um pouco das incertezas da vida no sabor da lágrima mais salgada que a água do mar. Não queimaram a pele ao sol que se intensifica nas praias, aqueceram os seus corações no calor familiar. O caminho estava cheio de problemas. Foi uma viagem longa e dolorida até a chegada do médico:

- Foi tudo bem, a Clarinha vai se recuperar!

A volta foi a melhor de todas. Todos estavam bem!


domingo, 14 de maio de 2017

DESEJOS (2)

Gostaria de ser a resposta
nunca a pergunta;
e ser a música,
não o instrumento;
não ser a dor,
somente unguento;
queria ser o riso,
não o palhaço;
a benção,
jamais a morte;
mais a alegria
que a sorte.
Gostaria, pois, de alterar
substancialmente
algumas coisas em minha vida.
E,
pelo exposto e assentado
jamais teria nascido.
Vagaria incógnito pelas estrelas
até ser gerado no ventre da Lua.
Então, mamaria ansioso
nas grandes tetas da Via Láctea
e sorriria da pequenez do mundo.


sábado, 13 de maio de 2017

A ARCA DE NOÉ (2)

- Osvaldo, cadê o Noé?

- Tá lá no quintal!

- Fazendo o quê?

- Ué mãe, o de sempre: barquinhos.

- Esse menino tem lição pra fazer, vá buscá-lo!

Assim foi a infância de Noé. Não, não é o Noé que você está pensando. Este, de quem falo, morava em Niterói e, quando adulto, tornou-se capitão da balsa Rio-Niterói. Sonho de infância realizado.

O que me remete ao Noé legendário, histórico: o da Bíblia.

Assisti, recentemente, a um filme com uma versão atualizada sobre o Noé onde ele era um deputado. Em certo trecho do filme, a esposa do Noé deputado, que resolveu abandoná-lo junto com os três filhos devido aos constrangimentos por que estavam passando, tomava um lanche quando apareceu o garçom que era caracterizado por Morgan Freeman, este ator espetacular. O detalhe era que Morgan Freeman estava fazendo o papel de Deus na história. Em certo momento do filme Deus comenta com a esposa:

- Quando você pede paciência a Deus, ele não te dá paciência e sim, a oportunidade de ser paciente.

Esta pequena frase mostra claramente que nós temos a permissão Divina para agirmos. Deus nos dá a autonomia para resolvermos. Veja como somos importantes!

Livre arbítrio: assim se resume esta nossa condição de escolher o caminho que queremos seguir.

Foi oferecida a Noé, o bíblico, esta condição. Construir ou não a arca. Noé, em um ato de Amor, optou por construir e foi salvo.

Vai acontecer, com muitos de nós, dizermos em algum momento:

- Deus não me ajudou!

É quando deveríamos nos recordar da pergunta: “Você optou por construir a arca?”.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

A MESA ESTAVA POSTA (2)

- Querido, corre ali no mercadinho e traga um refrigerante grande que estou passando bifes para os meninos. Daqui a pouco vão chegar esfaimados.

- Oba!

- Eu disse para os meninos!

- Oba!

- Que parte de “para os meninos” você não entendeu?

- A parte do bife que eu também sou menino.

Os dois riram da brincadeira.

Celso e Dirce passavam por um período difícil da vida. Ele havia perdido o emprego fazia já algum tempo e, tudo em casa estava bastante controlado. Celso conseguira uma colocação provisória que estava permitindo uma “festa” neste dia. Dirce havia encomendado quatro bifes, especialmente, para aquele dia. Era um dia qualquer, mas ela queria dar aos dois filhos uma refeição mais saborosa. Os meninos chegaram correndo como só meninos fazem. Detalhe: os dois filhos chegaram com dois amigos.

- Mãe, os meus amigos podem almoçar aqui?

Dirce conhecia as crianças, que vez por outra vinham brincar com seus filhos, e sabia que estavam em situação bem pior que a deles. Não pensou duas vezes:

- Claro que sim! Meninos, todos para o banheiro lavar as mãos.

Celso chegou com a pet e Dirce explicou a ele o que ocorria.

- Sem problema querida!

As crianças sentaram-se e Dirce as serviu um bife para cada um. Reservou aquele caldinho com cebola para ela e o marido. Os meninos terminaram o almoço e saíram para o quintal. Dirce comentou com carinho:

- Eu não disse que era para os “meninos”, parece até sexto sentido.

- As coisas estão melhorando querida, logo teremos um repeteco.

Celso pensou: “Nunca um bife que não comi me fez tanto bem!”.

Quando a caridade, a compreensão e o Amor são os temperos da vida.



quinta-feira, 11 de maio de 2017

SENSAÇÕES (2)

Penetra pelos meus ouvidos esta música
E vai me invadindo, a princípio lentamente.
Suave, doce, e ao mesmo tempo simbolista.
Oh! Música, doce música confidente.

Bendito seja o seu autor, desconhecido,
Sim, notei que sua alma é irmã da minha, pois
Dói nos acordes minha dor em sustenido
Co’a mesma intensidade e a dor de quem compôs.

Vagueio pelo éter. Agora estou no ar,
De repente me precipito em pleno mar.
Fantástica sensação. Viva a liberdade!

Bendito seja o seu autor desconhecido
Que se perdeu da vida e não ficou perdido,
Construindo aqui na Terra a sua eternidade.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

NAQUELE DIA (2)

Naquele dia, especialmente naquele dia pretendia ficar em casa. Era um Domingo, o tempo estava agradável, até um pouco frio. Tinha trabalhado bastante nos últimos dias e precisava de um momento retirado e quieto. Totalmente offline. Acredito que todos nós chegamos neste dia necessário de recuperação de forças.
Estava decidido! Vou procurar algum bom filme ou um destes sites com clipes de música ao vivo. Escrever... Nem pensar! Preciso deste repouso mental. Assim, deixei a garrafa de café próxima e me acomodei para o merecido momento. Vez por outra, fugiria para fumar um cigarro na varanda.

Sim eu sei, não deveria fumar! Vou me repetir, já tentei do químico ao Divino então, não tem solução.

Liguei a TV e comecei a minha busca por algo para passar as horas e me entreter. Estava no meio desta atividade quando o telefone tocou. Atendi:
- Alô!
- Pai?
- Oi filho! Como vai?
- Tudo bem, tem café por aí?
- Tem sim!
- Estou aqui com um pão de queijo pedindo para ser repartido com vocês. Estou chegando!
- Que bom, venham que estaremos esperando!

Meu filho chegou com a minha norinha e meu neto. Acabaram passando todo o dia. Foi divertido e gratificante.

Quando eles se foram no final do dia, fiquei me perguntando o que é que estava desejando tanto pela manhã?

Estava cansado, mas feliz. Parei para pensar que, algumas vezes, o inesperado pode nos deixar mais feliz do que o descanso que não tivemos.

Como é bom perceber que a nossa certeza é totalmente falha.





terça-feira, 9 de maio de 2017

A PRIMEIRA ESCOLA (2)

Quando eu era menino, o terreiro era cheio de frangos e galinhas. Nos finais de semana matávamos um no Sábado e um no Domingo. Nunca entendi isto, porque a gente brincando quase atropelava com a quantidade existente.

Porque um só?

Minha mãe preparava e dividia os pedaços entre meu pai e nós, os filhos, com parcimônia. Era incompreensível a limitação. Porque tantos animais no terreiro e apenas um frango à mesa?

Isto foi durante toda a minha infância e meu questionamento a respeito me incomodava.

Meu pai, um homem bom e caladão, dedicava-se ao trabalho diário de cuidar de um pequeno sítio onde tínhamos quase tudo: horta, pomar, porcos e galinhas, algumas vacas produzindo leite e uma pequena lavoura de onde colhíamos milho, feijão, mandioca. Ele saia de manhã, dava algumas ordens a mim e aos meus irmãos e ia para o campo. Normalmente orientando para um serviço específico. Pedro cuida das galinhas jogue o milho e recolhe os ovos; Jaime dê o trato aos porcos e troque a água dos cochos; Osvaldinho cuida da horta: molhe e colha verduras para o almoço; Zezinho vá atrás do bambuzal e veja se tem aboboras no ponto e colha. Nesta altura meu pai já havia tirado leite das vacas e colocado nos latões que o caminhão passava cedo coletando para levar ao laticínio. Todos os dias meu pai trocava o serviço que fazíamos para que aprendêssemos toda a lida do sítio.

O ônibus da escola passava às sete e meia. Tudo tinha que estar pronto a tempo.

Levantávamos por volta das cinco horas. Minha mãe já estava com o fogão queimando lenha e a chaleira com água para o café esperava pelo fogo. Assim que passava o café chamava um de nós:

- Vamos levar um café ao pai?

Íamos para o estábulo e mamãe sempre dizia:

- Osvaldo olha o café!

Meu pai dizia:

- Agora sim!

Aquele gesto representava uma das formas de afeto e carinho que havia entre eles. Muito contido, mas definitivamente verdadeiro. Meu pai voltava ao serviço e mamãe arrematava:

- Osvaldo, assim que terminar, sobe lá pra casa que o café vai estar na mesa.

Quando tinha os meus quinze anos arrisquei perguntar a minha mãe o porquê do meu questionamento (Apenas um frango ou galinha à mesa). Minha mãe era simples, mas sua sabedoria profunda. Olhou em meus olhos e disse:

- Meu filho, seu pai e eu começamos sem nada. Sem nada mesmo! Tínhamos conseguido este pedaço de terra e nos prometemos tirar desta terra o necessário para nós e os filhos que viessem. Trabalhamos duro meu filho e, com o tempo, vocês foram chegando e trazendo alegria para nossa casa. Seu pai e eu queríamos que vocês estudassem para terem mais oportunidade na vida. Assim foi que juntamos nossas forças e o Amor que tínhamos um pelo outro e o amor de nós dois por esta terra e trabalhamos. Aprendemos a poupar para termos o suficiente para oferecer a vocês uma vida melhor. Não acredito que uma galinha a mais teria feito diferença na sua alimentação ou na de seus irmãos, pois graças a Deus, foi sempre farturenta. Com esta nossa atitude esperamos ter passados a vocês que o desperdício não é bom. Muitos frangos e galinhas que não comemos serviram para vestir vocês e cuidar do essencial.

Minha mãe levantou-se e, ao passar ao meu lado, acariciou meus cabelos.

No Sábado seguinte, fomos à cidade com meu pai para entregar frangos, ovos e duas leitoas. Quando chegamos minha mãe mandou que lavássemos as mãos para o almoço. Assim que nos sentamos, havia sobre a mesa dois frangos assados. Ninguém fez nenhum comentário porque quando mamãe nos servia era o melhor dela para nós. Olhei para ela e meus olhos encheram-se de lágrimas. Mamãe percebeu e, levantando-se me chamou:

- Jaime, me ajuda a tirar uma bacia ali fora que esqueci no sol?

Levantei-me e a acompanhei. Chegando lá fora mamãe pegou seu avental e enxugou meus olhos. Deu-me um abraço apertado e disse:

- Está tudo bem meu filho, está tudo bem! Vamos almoçar?

A partir daquele dia, vez por outra, mamãe fazia dois frangos.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

PRIVILÉGIO (2)

Ouvi a caixa-d'água

altas horas da noite

bebendo água. Aos goles.

E o vento pedindo silêncio

entre as frestas e gelosias.

Shssssssssssssssssst!

Quando tudo se aquietou,

saíram ninfas e faunos

dos livros da estante,

dançaram e brincaram.

O amor tomou conta de tudo,

o ar encheu-se de perfumes

e a claridade emanava de uns vaga-lumes

enquanto eu olhava atento e mudo.


sábado, 6 de maio de 2017

FIQUE LIGADO! (2)

É fácil escutar por aí:

- Estou desligado de tudo!

Isto não é bom em todos os sentidos. Ligue-se! No 110 ou no 220, veja qual o seu perfil e conecte-se.

- Quando foi que o desânimo tomou conta de mim?

Tanta gente se pergunta e quer encontrar respostas. Nunca antes neste País se procurou tanto a ajuda emocional. Psiquiatras e Psicólogos estão em alta.

As religiões que trabalham com o dinheiro também. Tem ofertas de promoção Divina a preços módicos. Estão vendendo tijolos abençoados por apenas R$500,00. É o Deus oleiro nosso de cada dia. Deus não sabe, mas a coisa (Tijolo, vassoura santa) está vendendo adoidado por aqui. É a sobra das construções suntuosas feitas por estes “pastores” humildes. Não desanime meu amigo, busque a sua salvação no carnê mensal. Tem empresa, digo igreja, colocando ações no mercado da bolsa de valores. Não tem? Então vai ter! É o Deus empreendedor. Está tudo no livro! Bem, pelo menos as justificativas serão encontradas. Torce daqui, torce dali e tudo se arranja. Justificado em cartório.

Tudo em nome de quem:

- Em nome de Jesus! – gritam em coro.

Milagre, aleluia!

Cada um é cada um!

Fique ligado!

Quando sou franco, dizem que sou grosseiro. Quando o outro é franco, é apenas franco. Por quê? Porque sim!

Fique ligado meu amigo!

Vamos usufruir com ternura das hashtags:

#serfeliz
#terrazão


sexta-feira, 5 de maio de 2017

LIVRARIA (2)

Ele estava sempre em busca de um novo livro. Leitor voraz e apaixonado. Entendia que a vida não valia a pena sem a leitura. Aquela livraria em especial era o seu esconderijo algumas vezes na semana. Ficava dentro de um shopping enorme e, além da possibilidade de alguma leitura no local, tinha um café que sempre, mas sempre era delicioso. Era tomado como se fosse um aperitivo para a refeição que viria a seguir: a leitura. De certa forma tinha interesse por romances intensos, cheios de intrigas e mistérios embora, fosse possível encontrar em sua biblioteca alguns poetas renomados, mas não, a poesia não era a sua preferência.

A assiduidade ao local colocou Osório, este era seu nome, como cliente destacado. Da mesma forma, ele conhecia por nome todos os atendentes da loja: Marisa, Jonas, Renata e Alfredo, o gerente. Assim que chegava, algum deles o recepcionava:

- Senhor Osório, bom dia, como vai?

- Bom dia Renata, graças a Deus tudo em ordem. E por aqui, muito trabalho?

- Hoje está mais tranquilo. Fique a vontade e se puder ajudá-lo, me chame.

De certo tempo até aqui, uma senhora, se tornara assídua no local. Ela tinha algumas mechas grisalhas no cabelo que realçavam toda sua beleza. Era uma mulher especialmente bonita. Elegante e fina. Quem saberia a idade de uma mulher linda como aquela. Pensando bem, o que importa a idade.

Osório estava viúvo há mais de dez anos e seu luto estava sendo esquecido nestas leituras. Já tivera a oportunidade de trocar olhares casuais com ela e conferir suas preferências nos livros que folheava. Tinha bom gosto na leitura. Certo dia, num destes dias que acontecem na vida de todos nós, Osório lia uma revista de atualidades enquanto tomava seu café e ouviu que algo caíra ao chão. Seus olhos se desviaram da leitura para a prateleira próxima de onde um livro pesado, havia escorregado entre as mãos daquela mulher. Levantou-se rapidamente para pegá-lo, no mesmo instante em que ela fazia o movimento para abaixar-se. Chocaram-se.

- Desculpe-me! – disse ela

- Machucou-se? – retrucou preocupado.

- Não! Está tudo bem obrigada.

- Minha intenção era apenas ajudar, me perdoe.

Ele pegou o livro do chão e entregou em suas mãos. Novamente seus olhos se cruzaram. Neste momento, muito mais interessados um no outro.

- Gostaria de apagar este momento oferecendo um café a você... – esperou por uma informação.

- Leila! – disse ela

- Então Leila, meu nome é...

- Osório, – ela se antecipou – escuto os atendentes daqui falarem sempre seu nome.

Ele esticou o braço para cumprimentá-la e encontrou sua mão que já vinha em sua direção. Osório sentiu a suavidade daquele contato e apertou sua mão com ternura. Docemente a puxou para a mesa onde estava e disse:

- Só um instante, vou buscar nosso café. Como você gosta?

- Puro, com açúcar! –disse ela com discreto frenesi na voz.

- Já volto! Não fuja!

Ela sorriu...


quinta-feira, 4 de maio de 2017

PONTO DE ENCONTRO (2)

Queria que fosse aqui o ponto de encontro. Acredito que me enganei. Um ponto de encontro não é congestionado, é exclusivo. É na maioria das vezes de dois: você e eu ou ele e ela. Tem sinais de referência visíveis. Tem certos detalhes especiais, escolhidos a dedo para este acontecimento de encontrar-se. Quem sabe um pequeno café por perto, discreto e aconchegante. Algo exclusivo define este local, marcante, inesquecível. Torna-se parte de uma história.

Um jardim? Tão fora de moda e perigoso. Definitivamente de mau gosto. Jardim hoje em dia é ponto de droga, não de encontro.

- Alôôôô!

Um ponto de encontro, dependendo do tempo, tem marca registrada. Poderá ter até música própria. Ponto de encontro áudio visual completo 6.0. Se vacilar tem Wi-Fi free.

Enfim estou falando de encontro, estou necessitando do encontro que tenho contigo. Vou deixar a hashtag #éaqui no seu Twiter. Leia lá! O face estará muito visível. Pensando bem vou deixar inbox por lá também. Quero vê-la em off, muito close, naquele mesmo lugar.





quarta-feira, 3 de maio de 2017

BOM DIA! (2)

É o que esperamos sempre: um bom dia. Mesmo que o noticiário diga o contrário, vamos querendo um dia especial e, deste jeito, pode acontecer se formos: determinados, focados, disciplinados, entusiasmados na busca deste dia ideal. Mas, não se esqueça de que existe o noticiário com as taxas do incremento inflacionário, com o aumento da água, luz, ônibus, combustível, alimentação e outros.

Muitos outros!

Não se esqueça, também, de que os amigos, conhecidos e desconhecidos estarão, todos eles, tendo a mesma sensação.

Não mude o seu dia por ninguém.

Seu dia, em detrimento de todos os outros, será bom. Um bom dia.

Vamos fazer uma corrente de bom dia. Todos estarão batendo panela por um dia bom. Vamos enviar e-mails convidando cinco amigos a convidarem, cada um deles, mais cinco com o único objetivo de termos um bom dia. Se todos seguirem esta corrente, no final de 48 horas o Brasil poderá dizer que o dia é bom. Independente da Economia, da Educação, da Saúde, dosTransportes e dos etceteras e tais. As letras maiúsculas acima podem ser entendidas como SARCASMO.

Bom dia!

Devemos manter distância do noticiário e dos políticos, pois são perniciosos e destrutivos (Sei que é impossível!). Assim mesmo, vamos ter um bom dia.

Meu bom dia a você!!!


terça-feira, 2 de maio de 2017

LOUCURAS (2)

Dançando com os coqueiros
A dança dos coqueirais,
Dançava o mar na ressaca
Em noite cheia de ais.

Do alto do firmamento
A Lua olhava a folia,
Ainda bem que sei que é a Lua,
Pois juro que Lua ria.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

AUTUMN LEAVES (2)

Aquela folha ia sendo levada pelo vento, estava a uns seis ou sete metros do chão e, vez por outra, com a mudança de direção do vento, dava trancos no ar e se reposicionava suavemente. Parecia um bailado moderno. Uma folha seca, muito desidratada e, assim sendo, leve. Era possível perceber a sua estrutura nervosa exposta pela decomposição de sua massa foliar. Um desenho. Afastava-se surfando no vento. Aqui e ali pegava um tubo aéreo.

O Outono traz a mudança de cores nas folhas e, logo após, sua queda. Acontece nas árvores caducas (Deciduifólias), aquelas que por sua condição citada, perdem as folhas em determinadas épocas do ano. A grande maioria no Outono. Irão muitas delas, entrar em hibernação. Dormir, descansar, repor energias para estarem prontas com a chegada da Primavera onde seu viço aparecerá por completo: folhagens novas, flores e frutos.

Nestes ventos pontuais é um show a parte este momento, quando se desprendem e, algumas, alçam voos mais longos como esta bailarina/surfista de hoje.

Será que nossa alma é como uma folha seca? Quando do momento final do nosso Outono humano se libera e voa?

Poderia ser assim?

Gostaria que fosse assim!

E as almas pesadas como ficariam?

O meu imaginário me permite ver a alma se soltando da matéria em sua forma desconhecida e... De repente! As mãos de Deus a ampara e carrega como um pai a proteger seu filho. Aquela alminha nova e desorientada, embora saída de um corpo velho irá começar nova vida, aprender a falar e andar em outro cenário.

Quem sabe o Céu!

Não estará assustada, pois quem a carrega é o Pai. Não haverá o medo do desconhecido. Não haverá desamparo ou fome.

Fugi do assunto!

Novas folhas serão escolhidas para estrelar na próxima estação. Um curto estrelato em voo solo e único para algumas outras folhas de Outono.