terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

PORQUE NÃO (2)

Ouvi o estalido de um beijo.
Um estalido...hummmmm!
De beijo de amigo.
De beijo de filho.
De beijo de irmão.
Não tinha o ruído de um beijo ardente.
Não tinha paixão.
Era apenas um beijo,
de chegada ou despedida
neste dia de verão.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

SONOLÊNCIA (2)

- Você pode abaixar o volume da televisão – diz ela
- Claro querida.
Depois de alguns minutos.
- Você abaixou o volume como pedi?
- Sim
- Parece que ainda está alto, dá para diminuir mais um “tequinho”?
- É pra já!
Com o volume muito baixo, perdendo as falas aqui e ali, a cabeça dele se voltou para algumas atividades que fizera no dia e foram se misturando com o som quase inaudível da TV. Aquilo de tentar pensar e, ao mesmo tempo, tentar ouvir o som da TV, foi colocando nosso amigo em estado hipnótico. Ele cochilou...
Me socorro de um poema para terminar este texto que está difícil:


SONOLÊNCIA (Que lugar é este?)


Mas, que lugar é este
onde me encontro agora?
Este cachorro está lambendo as minhas mãos e,
ao mesmo tempo rosna.
Onde dará a escada que vejo a minha frente?
Estão batendo a porta.
Quem é? O que será?
Se não sei onde estou,
Quem vem me procurar?
E este vento gélido,
Glacial, tão imprevisto,
De onde vem?
Não entendo!
O fogo está aceso
Tenho certeza disto: o fogo está aceso!
Só não sei onde estou
Nem que cachorro é este.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

BORBOLETA (2)

Borboleta multicor
Frágil e bela.
Faz seu voo oscilante
nesta tarde quente.
Me transporto ao casulo de origem
que é mais sala de espera que prisão,
onde se encontra uma lagarta feia
em fase de gestação.
Ali, em sua incomunicabilidade,
aguarda o desmanchar da teia:
a liberdade.
E nasce ou renasce,
se estica toda e se ajeita.
Suas asas se aprumando, desenham uma paleta
que pintor nenhum usará
na minha borboleta.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

TIO ROMÁRIO (2)

Tio Romário, é meu tio avô, irmão do meu avô paterno Vidal, de quem já falei ou vou falar ainda, era conhecido por sua postura tranquila. Hoje, acredito que diríamos outra coisa. Deixa pra lá!
Assim que construíram sua casa em Ribeirão Preto, tia Vevinha disse que precisavam de um banco na varanda. A verdade é que tio Romário se esquecia do fato e, novamente, tia Vevinha o lembrava:
- Romário, você já encomendou o banco para a varanda?
Tio Romário respondia:
- Veva, –era como ele a chamava - pode deixar que esta semana vou resolver o assunto.
Mais uma ou duas vezes tio Romário foi lembrado até que decidiu. Foi até um marceneiro que conhecia para fazer sua encomenda. Chegando a marcenaria perguntou pelo Osvaldo, o marceneiro. Cheio de pó de serra lá vem o Osvaldo.
- Seo Romário, como vai?
- Estou bem Osvaldo.
- O que o Senhor precisa?
- É o seguinte Osvaldo, a Veva quer um banco para a varanda lá de casa.
- Sem problema! – retruca o Osvaldo – Como é que o Senhor quer o banco?
Tio Romário, não tinha a menor ideia de como seria o banco.
- Não sei Osvaldo, a Veva pediu um banco para a varanda.
- Tudo bem Seo Romário, mas preciso ter uma ideia de como será: com encosto ou sem, com anteparo para os braços, madeira maciça...?
Osvaldo foi apresentando várias sugestões e tio Romário não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Argumentou:
- Osvaldo, vamos fazer o seguinte, volto em casa e peço a Veva que me diga o que ela quer.
- Tudo bem Seo Romário!
Tio Romário, foi embora ruminando sobre o assunto até que chegando em casa vai direto ao assunto:
- Veva, o Osvaldo quer saber que tipo de banco nós queremos e eu não soube responder.
- Ora Romário, um banco para varanda. Simples assim!
- Mas o Osvaldo falou um monte de coisa sobre o banco...
Tia Vevinha interrompeu já um pouco “ardida”:
- Romário, peça a ele para fazer um banco para nossa varanda e fim de prosa. Ele é marceneiro e deve saber como fazer!
- Está bem Veva, vou resolver isto agora mesmo.
Tio Romário pegou o caminho da marcenaria já desgastado com a dificuldade.

Devo acrescentar aqui uma característica que conheci quando ele visitava meu sogro, Sr Geraldo. Como morava a duas quadras, vinha sempre com um travesseiro debaixo do braço. Chegava, dizia bom dia, e se dirigia ao sofá da sala onde colocava seu travesseiro e se acomodava deitado. Se Dona Aurora oferecesse um café e ele aceitasse, ela teria de levá-lo até o sofá. Sim! Ele aceitava o café desde que chegasse no sofá onde estava. Quem quisesse conversar com ele teria que ir até a sala. Se ninguém aparecesse, ótimo! Tirava um cochilo. Findado o cochilo ou a prosa, juntava seu travesseiro e voltava para casa. Isto sempre acontecia desta maneira.

Voltando ao banco em questão. Tio Romário chegou à marcenaria e disse ao Osvaldo:
- Osvaldo, faça um banco como você achar melhor.
- Mas Seo Romário, e os detalhes?
- Você use os detalhes que um banco de varanda tem que ter.
- Tudo bem! E o tamanho?
Tio Romário, foi novamente pego no contra pé. Não tinha nenhuma ideia. Refletiu um pouco e foi taxativo:

- Osvaldo, faça um banco do tamanho de um homem deitado! É isto, do tamanho de um homem deitado. – E foi embora.
Chegando em casa finaliza:
- Veva, seu banco está sendo feito, acho que você vai gostar!


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

BONSAI IV (2)

Fui convidado pelo Ceasa, de Santo André, no final dos anos 90 (Não achei registros para definir a data.) para uma palestra, um mini curso. Era uma festividade qualquer onde, estavam acontecendo durante um final de semana, vários cursos como ikebana, jardinagem e outros, incluídos aí o bonsai.
Solicitei aos organizadores que providenciassem um junípero de bom tamanho para uma pequena demonstração. Fiquei surpreso quando vi um junípero horizontalis, o conhecido jacaré, de tamanho bastante grande. Fiz uma *preleção bastante ágil pelo tempo de que dispunha e, com o máximo de informações. Para isto havia providenciado algumas pequenas mudas que serviram ao objetivo que pretendia.
Feita as informações básicas de como poderiam iniciar um bonsai e, fica claro, limitadas as informações ao tempo de que dispunha, reservei um tempo para mostrar uma atividade mais avançada trabalhando o junípero em questão. Coloquei o mesmo sobre a mesa e comecei, após algumas informações necessárias do que iria fazer, o meu trabalho. Devido ao posicionamento da árvore em questão, acabei ficando de costas para os participantes para cortar um determinado galho que estava excessivamente longo. Cortei! Era um galho longo e bem cheio que, caiu ao chão.

Ouvi um som de espanto:
- Hãããnnn!!!
Me voltei e perguntei:
- Quem foi?
Um senhorinha entre 60 ou 70 anos assumiu:
- Fui eu!
- Porque do seu espanto? – perguntei.
- É que o senhor cortou a árvore! – exclamou ela.
- Sim, é verdade cortei.
Percebi que não estava conseguindo atingir, ou melhor, me explicar adequadamente. Nestes momentos, tenho alguns **insights muito interessantes. Perguntei:
- A senhora tem filhos?
- Sim – respondeu ela
- A senhora bateu em seus filhos quando pequenos, por qualquer razão?
- Sim! – responde sem entender.
- Mas, porque a senhora bateu em seus filhos? – perguntei.
- Oras, - disse ela – para educá-los!
Fiz um pequeno silêncio olhando bem para ela e, em seguida, para todos.
- Eu, fiz o mesmo com a minha árvore!
Todos estavam atentos tentando entender a minha lógica. Eu mesmo estava buscando a “minha lógica” neste meio tempo. Continuei:
- Eu vou falar sobre um livro. Quero deixar claro que não estou falando de religião, mas apenas de um livro: a Bíblia! Este livro contém ensinamentos de todas as áreas como História, Pedagogia, Filosofia, Matemática...
- Matemática! – disse alguém quebrando minha fala.
- Sim, disse eu – matemática! É onde Jesus ensina que é dividindo que se multiplica. A matemática do Amor. A matemática mais fácil de entender e aprender e, no entanto, tão difícil de ser usada.
- Ahhhh! – disse a mesma pessoa.
- Então, - continuei – neste livro, que contém vários livros dentro dele, mostra em um deles um versículo qualquer que diz: “Poupe a vara e estrague o seu filho. Porque as marcas de uma vara (De uma cinta) saem com o tempo, as marcas da má educação não sairão jamais.” Esta a razão que explica as palmadas que a senhora deu em seus filhos. Porque tenho certeza de que hoje, educados, são filhos que lhe trazem orgulho e alegrias em sua vida. Quero o mesmo para minha árvore, pela mesma razão que a senhora. Quero que mais a frente ela se pareça muito bonita após educá-la adequadamente.
Percebi que algumas pessoas na sala choravam e outras, tentavam disfarçar alguma lágrima que não se continha dentro dos olhos.

Não me lembro do trabalho feito com aquela árvore. Lembro-me que o bonsai me levou a um local onde pudemos nos emocionar com esta Arte: BONSAI.


*Preleção - s.f. - Lição; discurso didático e educativo antes da realização de uma tarefa. Exposição de um conteúdo cujo propósito é meramente didático.
**Insight - Originário, provavelmente, do escandinavo e do baixo alemão, insight é definido na língua inglesa como "a capacidade de entender verdades escondidas etc., especialmente de caráter ou situação" portando um sentido igual a "discernimento" ou "a capacidade para discernir a verdadeira natureza de uma situação", o ato ou o resultado de alcançar a íntima ou oculta natureza das coisas ou de perceber de uma maneira intuitiva. (Fonte -http://www.dicionarioinformal.com.br/insight/)



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

BONSAI III (2)

No ano de 1997, comecei a receber interurbanos de Cuiabá de um menino, Gabriel. Ele tinha na época 9 anos. Seu assunto era o bonsai. Como sempre, procurava atender da melhor forma possível, tirando suas dúvidas ou dando informações solicitadas. Nem mesmo o maior esforço de memória poderia me lembrar dos assuntos específicos. Em sua segunda ligação alguma coisa começou me incomodar, afinal, eram interurbanos de Cuiabá para Ribeirão Preto, tinha um custo embutido nestas longas conversas. Então eu disse:
- Gabriel gostaria de falar com sua mãe!
- Por quê?
- É que preciso de uma informação que só ela poderá me dar. Chame sua mãe e depois nós continuamos conversando.
Ouvi Gabriel chamando:
- Mãe, mãe!
Ouvi passos se acercando.
- O que foi Gabriel?
- O Sr Mário quer falar com você.
- Alô! – disse ela
Solicitei seu nome: Mari e fui direto ao assunto que me incomodava:
- Dna Mari, a senhora está a par das ligações do Gabriel para mim? – expliquei sobre os gastos com as ligações.
- Sim, eu estou sabendo.
- Então, quando ele ligar, posso atender despreocupado? – perguntei
- Sim, quando o Gabriel liga para o senhor eu estou sabendo.
- Que bom! – disse eu. Pedi a ela para retornar o Gabriel.
Não me recordo quantas vezes mais ele ligou para mim. Impossível!
Tempos depois, neste mesmo ano de 1997, recebi um convite do José Carlos T de Carvalho para ministrar um Curso de Bonsai em Cuiabá. Minha surpresa foi que Gabriel era um dos alunos.

Em 2014, no meu evento em Ribeirão Preto, vieram vários amigos de Cuiabá. O Diogo Ormond era um deles. Em determinado momento se achegou e disse apontando um rapaz:
- Mário, você se lembra dele?
Olhei atentamente, mas não consegui identificar.
- Não, não sei quem possa ser. Desculpe-me! – disse eu para o estranho.
O Diogo esclarece:
- Ele é o Gabriel que ligava para você quando menino.

Surpresa!!!

A vida vai dando voltas. O Gabriel, cujo nome é Gabriel de La Cruz Mota, hoje é engenheiro e trabalha em São Paulo. Foram 17 anos sem contato e a sua presença me trouxe a lembrança viva deste acontecimento tão agradável.

Um menino de 9 anos interessado na Arte Bonsai.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

BONSAI II (2)

Em 2010, fui convidado, para fazer uma demonstração em Nitra, na Slovakia, nos dias 22 a 25 de Abril. Seria minha segunda vez naquele País, já havia estado por lá em 2003. Na semana anterior, estaria fazendo demonstração em Portugal, no Centro Bonsai, em Sintra.

Foram juntos nesta viagem o Bergson de M Vasconcelos e Charles White. Foi grande a minha alegria com a presença destes dois amigos. A viagem até Lisboa foi em voo direto. Fomos recepcionados pelo Marcos Rodrigues, proprietário do Bonsai Centro, que nos levou a Sintra onde iria acontecer a demonstração. Ficamos acomodados na Hospedaria Piela’s, local agradável que havia sido reservada para nós. No dia seguinte, Marcos veio nos buscar para conhecermos seu espaço. Um lugar muito organizado, com uma grande diversidade de assuntos além do bonsai. Sua área de vendas incluía um bar e cozinha onde, em finais de semana, amigos do bonsai se reuniam para, além do bonsai, degustar saborosos pratos portugueses. Posso dizer que nós três fomos brindados com deliciosas refeições por ali.
Houve um pequeno senão nesta viagem devido ao vulcão da Islândia, o Eyjafjallajokull (É este mesmo o nome. Se é que posso falar assim: indizível), que estava produzindo uma nuvem de cinzas causando uma interrupção severa no espaço aéreo europeu. Não só na Europa, logo depois na África e no países asiáticos também. Um transtorno internacional. A nuvem de cinzas produzida pela erupção transtornou a vida de centenas de milhares de passageiros devido as restrições de voos e provocou o maior fechamento do espaço aéreo europeu desde a Segunda Guerra. Estas notícias começaram a aparecer direto na televisão portuguesa e, interessados, estavamos a todo momento querendo saber das possibilidades do nosso voo para Viena/Áustria, onde um motorista viria nos buscar para chegarmos a Nitra, na Slovakia. As notícias não eram nada boas. No aeroporto de Lisboa, muitas famílias estavam dormindo no chão porque não tinham outra alternativa. As férias haviam acabado ou qualquer que seja o motivo da viagem estava resolvido. Queriam voltar para casa, o dinheiro já estava contado e não tinham como sair dali. Vimos pela televisão, reportagens onde mostravam os moradores de Lisboa levando “quentinhas” para estas pessoas, porque muitas estavam realmente sem dinheiro até para alimentação.
Pensamos em alugar um carro, impossível devido o preço. Na Segunda Feira, depois de várias conversas com Marcos, decidimos arriscar e ir para Lisboa tentar alguma possibilidade. Fazia três dias que nenhum voo chegava ou partia de Lisboa.
Um caos!
Fomos assim mesmo pois havia alguma notícia da abertura do aeroporto devido a dissipação das nuvens vulcânicas. De fato, demos sorte, conseguimos um voo para Bruxelas, na Bélgica. Não era o nosso caminho, mas a opção que encontramos para sair.
O avião desceu em um aeroporto vazio. Era o primeiro voo que chegava a Bruxelas nos últimos três ou quatro dias. Quando o avião pousou, a maioria dos passageiros festejaram batendo palmas e dizendo expressões de contentamento nas mais diversas línguas. Ficamos no aeroporto uma noite inteira sentados em bancos de metal. Nossa conversa ia de um lado para o outro. Falávamos da preocupação que deveriam estar nossos amigos organizadores do evento, Vladimir e Alena. Havia, entre os convidados, pessoas da Asia, da África, da Namíbia e, com os aeroportos fechados, como será que estariam administrando esta tensão na semana do evento?
Nosso voo, se não houvesse nenhum novo impedimento, sairia no dia seguinte para Viena. Estar sentado por 10 horas vai gastando a nossa “prosa”. Vez por outro um de nós cochilava. Era o que se podia arrumar naquelas condições. Lá pela madrugada, sem assunto, Bergson, que muitos conhecem, não perde o momento se tem que fazer alguma gozação com alguém. É como ele mesmo diz: “Perco o amigo mas não perco a piada!”. Usando deste mesmo caminho, foi fundo para arrumar assunto e começou com sua entonação acentuada de nordestino:

- Meu tio, – disse dirigindo-se a mim – eu estou muito desconfortável com esta situação!
Fiquei sem entender nada, pensando que poderia ser pelo transtorno de estarmos naquele aeroporto frio, vazio e em bancos gelados.
- Que situação Bergson?
Deixe-me esclarecer “a pequena situação” antes de continuar. No Fórum do Atelier do Bonsai, muitos amigos me chamam de Dom Mário. Isto deve ter começado quando algum amigo latino fez, pela primeira vez, esta referência a mim, o que foi assimilado rapidamente. Charles White, para quem não sabe, é filho de Inglês. Bergson então continuou:
- Veja você a injustiça, estamos aqui na Europa, indo para outro evento e eu estou muito desconfortável...
Cortei a conversa dele:
- Bergson, você já disse que esta desconfortável. Pergunto com o quê?
- É o seguinte meu tio, veja bem, estamos aqui sentados neste lugar gelado, longe de casa, um frio da “mulesta”. Oh saudade de Maceió! Então, como disse, estamos aqui e, digamos que a polícia chegue e pergunte quem somos o que vou dizer?
- Como assim, – disse eu – dizer o que?
- Vai que me perguntam: “Quem são vocês?” Vou ter que responder: Este é Dom Mário, aquele é Lord Charles e eu, bem eu com esta cor ultra, super, top morena, sou o slave (Escravo) Bergson.

Rimos durante um bom tempo. Nosso voo saiu as 09:00 h da manhã. Chegamos em Nitra sem mais problemas.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

BONSAI I (2)

No final dos anos 90 fui ministrar um Curso de Bonsai em Cuiabá, convidado pelo José Carlos T de Carvalho que havia juntado um grupo de interessados. Como eram muitas pessoas, resolvi dividir em duas turmas, uma no Sábado e outra no Domingo. Ficou tudo acertado e fui para Cuiabá, me parece, na Quinta Feira que antecedia o Curso. O José Carlos e Joara, sua esposa, me recepcionaram em sua casa, na noite da minha chegada, com um saboroso jantar onde estava incluído entre os pratos, o arroz com *piqui, típico da região. Como poderia faltar!
Quando acabamos de jantar, Joara serviu um cafezinho. Neste momento conversava com o José Carlos e, Joara, sentou-se a meu lado para servir. De certa forma eu estava de costas para ela que, enchendo as xícaras, nos serviu. Já tinha provado o café quando Joara me perguntou:
- Como está o café Mário?
Respondi de imediato olhando para ela:
- Mais ou menos! –e voltei a conversar com José Carlos.
- Como assim mais ou menos, você não gostou?
- Gostei sim Joara, estava mais ou menos. – reforcei.
Ela ficou incomodada e me perguntou:
- Mário, você quer que eu faça outro café? – seu tom de voz não estava mais no mesmo nível de sonoridade.
- O que é isso Joara, não tem necessidade.
- Mas você disse que o café está mais ou menos!
- É verdade! – respondi – Não está ruim, está mais ou menos.

Tenho que esclarecer, logo no começo desta conversa, fiz um pequeno sinal ao José Carlos que deixou a conversa ir fluindo. Completando informações: não conhecia nem o José Carlos, nem Joara até aquele dia.

Joara, não se continha no assento, embora estivesse olhando para o José Carlos, percebia a sua agitação. Não deu trinta segundos e ela diz:
- Vou fazer outro café! – definitivamente sua voz estava alterada.
- Joara, não tem necessidade! – coloquei delicadamente.
Ela pegou a garrafa e foi se dirigindo a cozinha quando senti que deveria interrompê-la.
- Joara, deixe-me explicar uma coisa para acalmar os ânimos. Parece-me que você está se alterando sem necessidade.
- Como sem necessidade, - disse ela, definitivamente nervosa - você disse que meu café está mais ou menos!
-E é verdade, - falei mansamente – porque café bom é o meu, o resto é mais ou menos.
Pensei comigo: “Isto não vai dar certo!”

Joara saiu dos trilhos, disse que não faria o café para o Curso no dia seguinte e mais, que não faria café, para mim, nunca mais. Neste momento, fiz um sinal para o José Carlos, o “pudim” estava desandando...

Bem, finalizando, levei uns quinze minutos para explicar a ela a minha “brincadeira”. Disse que em minha casa todos sabem, quando digo que está mais ou menos, é porque está bom.
Tudo terminou bem, consegui acalmá-la e garantir o café para os dois dias do Curso. Consegui mais ainda, evitar que ela jogasse aquela garrafa de café fora. Quase aconteceu...!


*Piqui - ou pequi origina-se do Tupi “pyqui”, onde py = casca, e qui = espinho, referindo-se aos espinhos do endocarpo do fruto (parte dura do caroço). Árvore que atinge 10 m de altura, o piquizeiro é uma das mais importantes plantas para a alimentação do homem do campo e que cada vez mais conquista destaque nos cardápios dos restaurantes de comidas típicas da região.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PRIMA NENÊ (2)

Recebemos a visita das primas, Mercedes e Nenê, é assim que sempre a chamamos: Nenê. Hoje ela está com 93 anos, a prima mais velha, que vem acompanhada de uma sombrinha, seu apoio eventual, pois tem mais vitalidade que muitos de nós. Quando nova, Nenê teve um conservatório musical em São Paulo. Sua fala é fluente e clara; sua alegria, contagiante. Yamara, minha cunhada, trouxe as duas e, junto, uma broa e um bolo a tiracolo. O café já estava pronto quando chegaram.

Sem celular, sem Whatsapp, sem Facebook. Foi incrível, conseguimos conversar por 2 ou 3 horas sem tecnologia nenhuma. É bem verdade que somando as idades, por baixo, tínhamos ali 350 anos de assunto familiar. É assunto pra mais de ano!

O tempo só não foi maior porque Mercedes tinha passagem comprada para São Paulo onde mora. No meio das conversas, Nenê comentando sobre sua mãe, minha tia avó: Vevinha; tia Vevinha era casada com o irmão do meu avô Vidal, tio Romário.

- Pois bem - disse Nenê - mamãe viveu até os 102 anos e, desde sempre, foi quem cuidou da casa. Papai (Tio Romário) se foi bem antes dela. Certo dia, alguém perguntou a mamãe:

- Vevinha, você não sente saudades do Romário?
Responde:
- Sim, muita saudade!
- É, já faz um bom tempo que ele partiu!
- É verdade! – confirma tia Vevinha.
Não me lembro quem era a pessoa, disse Nenê, mas pela pergunta feita deveria ser íntima.
- Você não tem vontade de encontrá-lo?
Tia Vevinha mais que depressa responde:
- Tenho sim, mas minha filha, não tem tanta pressa assim!

Saudade, todo mundo tem. Partir daqui... Tia Vevinha viveu mais 10 ou 15 anos após aquela prosa, firme e forte. Cuidando da casa.

Café, um pedaço de bolo, outro café e a conversa foi andando até que chegou a hora limite para que Mercedes tomasse seu ônibus para São Paulo. Mandamos, como encomendas, lembranças pela Mercedes a todos os familiares.
Estas visitas gostosas que, a cada dois passos ao sair, paramos e comentamos outra lembrança deliciosa. Sabemos que vão se perder, então é necessário falar delas enquanto lembramos.
No derradeiro abraço, Nenê finaliza amorosamente:

- Vou trazer alguns dias junto comigo da próxima vez! Assim será possível buscar mais recordações.
Sempre começarão assim:
- Você se lembra...?

Nenê partiu com seus 93 anos a bordo de si. Como foi bom!


sábado, 18 de fevereiro de 2017

A PALAVRA GRATIDÃO (2)

Das coisas que não tem preço, somente a gratidão recompensa até porque, nas situações onde a gratidão aparece, tem do outro lado, a amizade, a fraternidade, o amor ao próximo. Sim, a gratidão embute algo muito acima de valores, até porque as atitudes que geram a gratidão extrapolam o material, não podem ser dimensionadas embora, possamos estar gratos por favores materiais. Paro agora esta reflexão para relembrar, quando e onde em minha vida senti esta sensação de agradecimento: gratidão. Fui surpreendido pela quantidade de lembranças onde fiquei em dívida, porque quando este sentimento nos envolve, com certeza, estaremos em dívida com aquele que nos emocionou e gerou este sentimento.

Será que retribui este momento de alguma forma?

O retribuir ou, redistribuir a gratidão se torna parte de nós quando somos beneficiados por ela. Deveria ser assim mesmo, mas sabemos que nem sempre é este o caminho tomado por todos.

Tenho certeza de que nossa *percepção nos orienta corretamente para sabermos agradecer e, porque não, louvar a Deus por estes pequenos milagres que nos fazem gratos e que, por consequência, nos tornam melhores.

Por esta razão digo a todos estes meus benfeitores:

- Deus lhe pague meu amigo, minha amiga! Além disto, tenho a moeda que corresponde a sua generosidade. Estou tão rico por ter você a quem posso oferecer minha gratidão.


*Percepção - s.f.- Impressão; capacidade para discernir; juízo consciencioso acerca de algo ou alguém: é necessário entender a percepção do certo e do errado.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O CERTO e o ERRADO (2)

Estão presentes desde sempre em todo o momento e não tem como não sabermos qual é qual. Desde a mais tenra idade, mesmo antes de falar, é fácil observar as atitudes de uma criança ao experimentar algo errado e, com os olhos, buscar o consentimento dos pais que, neste momento, dirão:
- Nãããão!
A criança já sabia que estava errada. Existe, me parece, nos nossos *genes, alguma informação ancestral do certo e do errado. Senão, como explicar a atitude de um bebê. Claro que isto é um **devaneio na tentativa de explicar o inexplicável.
Entendo que passamos, aos nossos filhos desde a mais tenra idade, diversos conceitos que serão usados no futuro, como justificativa, para agirem de forma errada baseados nas informações recebidas de nós mesmos. A troca de uma obrigação por um favorecimento. Por exemplo:
- Se você fizer a sua tarefa e tirar notas boas você ganha...
Errado!
Estamos usando uma pequena chantagem para atingir um objetivo. E assim como este exemplo simplório, seguem-se uma infinidade deles que carregam o errado em seu conceito para atingirmos um resultado. Desta forma, distorcemos o certo e confundimos a conceituação das crianças.
Bastante difícil.
Paulo Coelho diz: “Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia”.
Definitivamente, a melhor maneira de transmitirmos aos nossos filhos o conceito do CERTO e do ERRADO é através das atitudes.
A conceituação com palavras é bonita e pode ser assunto para longas conversas ou divagações. O conceito do exemplo é prático e inesquecível.

Palavras o vento leva...

Viver o certo é definitivo!

*Gene - é a unidade fundamental da hereditariedade. Cada gene é formado por uma seqüência específica de ácidos nucléicos (biomoléculas mais importantes do controle celular, pois contêm a informação genética. Existem dois tipos de ácidos nucléicos: ácido desoxirribonucléico – DNA- e ácido ribonucléico – RNA). Informação do site - www.todabiologia.com
**Devaneio - s.m. Estado da pessoa que divaga ou se deixa levar pela imaginação, pelas lembranças ou pelos sonhos.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

RAZÃO (2)

No dia 17.10.2015, comecei a escrever, diariamente, alguns textos com o título “PENSANDO”. Tem sido um exercício interessante e, ao mesmo tempo, difícil. Não tenho a facilidade destes articulistas que conseguem, durante períodos muito longos, escreverem sobre os mais diversos assuntos todos os dias. Procuro não entrar na política embora esbarre vez por outra. Eventualmente se o fizer serei, na medida do possível, genérico. Nunca citando nomes. Se possível!
Vez por outra coloquei alguns poemas do meu livro de poesias ”LIMITAÇÕES”, acredito que ainda me socorrerei destes trabalhos já feitos. O escrever diário requer treino e imaginação e os poemas me ajudarão nestas falhas de inspiração literária.
Tenho tido o cuidado de colocar ao final dos textos, o significado de algumas palavras que entendo serem necessárias. Posso dizer que é muito mais para mim do que para o leitor. Sobre o cuidado com a *sintaxe me socorro com Luis Fernando Veríssimo que diz: “A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?”
Não sou tão simplista como Pablo Neruda quando diz: “Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias”. É aí, no meio, que está o problema: IDEIAS. Pessoalmente, vejo o escrever como uma lavoura árdua onde as palavras que entendo como sementes, devem brotar nos seus devidos lugares para serem usadas adequadamente, e que possamos retirar delas todo o seu conteúdo.
Finalmente, sobre as palavras escrevi um poema, que me socorre mais uma vez para finalizar este texto.

Poema do meu livro “LIMITAÇÕES”

PALAVRAS

Palavras, quem dera conhecê-las.
Todas,
completamente.
Ser íntimo dos verbos e substantivos.
Relação amorosa de pai e filho,
dicionaricamente.
**Aurélio! Aurélio! Aurélio!
Que pena!
Meu nome é Mário.


* Sintaxe é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e a das frases no discurso.
** Aurélio - é de Aurélio Buarque de Holanda. A preocupação com a língua portuguesa e o amor pelas palavras levou-o a estudar e pesquisar o idioma durante muitos anos com o objetivo de lançar seu próprio dicionário. Finalmente, em 1975, foi publicado o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, conhecido como Dicionário Aurélio ou somente "Aurelião" ou "Aurélio". Modesto, ele vetou a inclusão, na sua obra, do verbete "Aurélio" como sinônimo de dicionário.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O GOSTO DO DIA DE HOJE (2)

Acredito que cada dia tem um sabor próprio; alguns nos imprimem lembranças, de tal forma, que são inesquecíveis; outros, nem tanto assim. Fico pensando que em muitos destes dias, “nem tanto assim”, passados, poderia ter mudado o sabor para melhor e não o fiz. Pequenos detalhes de atenção que alterariam toda a recordação negativa que ficou. A dificuldade para a grande maioria de nós é que tardamos em entender “os detalhes”. O detalhe de um “beijo”, um “até logo”, um “obrigado”, um “como vai?”, um “posso ajudar?”, no tempo certo. Certamente os dias “nem tanto assim” seriam poucos, porque é com muito pouco que se conseguem dias melhores. Não atentamos para as oportunidades. Não olhamos para fora nestes momentos. Estávamos olhando para dentro. Para nós mesmos. Erro fatal! A grande vantagem é que podemos mudar.
Sim, podemos mudar!
Se nos permitirmos, poderemos nos surpreender e, melhor ainda, surpreender o outro. Aí sim, entenderemos a *recíproca da atenção. É a consequência inevitável do é dando que se recebe.

Fórmula simples, mágica!

Para conseguir deixar o gosto do dia de hoje melhor.


*Recíproca - Recíproco significa algo presente numa relação entre duas partes, quando, existindo de um lado, existe de igual modo no outro.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

FILHO MAIS NOVO (2)

No dia em que trouxemos o nosso filho mais novo para casa, saí do Hospital amparando minha mulher e carregando as tralhas do moleque. Sim era um menino! Beto. Já tinha tido a primeira experiência de ser pai com a Andréa, a filha que faz um pai querer ser o compositor de: “Oh coisinha tão bonitinha do pai!”. Bem, neste caso, é do Jorge Aragão.
No caso do Beto, houve a necessidade de fórceps, ele não queria nascer de jeito nenhum. Zoraide estava bastante debilitada pela intervenção e, chegando em casa, foi direto para cama. Arrumei as sacolas e todo o essencial no momento enquanto Zoraide dava de mamar para o Beto. Ver o filho mamando é o momento mais encantador após nascer, esta é a palavra certa ao ver o filho mamando: encantador. Aquele barulhinho típico, com pequenos estalidos e a respiração sôfrega. A ânsia que a criança tem naquele momento sorvendo o leite materno, a testinha suando pelo trabalho de sugar e, finalmente, saciado adormece.
Danado do milagre da vida!
Passado alguns momentos, Zoraide me pede para fazer o Beto arrotar e depois trocar sua fralda. Já estava escolado nestas matérias e foi fácil. Fui batendo levemente em suas costas e... bruuuuuuu (Não sei se esta é a *onomatopeia do barulho do arroto mas...fica como se fosse). Parti então para a troca da fralda. Acomodei o moleque na cama e fui soltando aqueles grampos enormes, com trava de segurança, para liberar a fralda. Aquele moleque, três quilos e meio se não me falta a memória, estava feliz. Barriga cheia, o pai trocando a fralda molhada que mais iria querer na vida. No momento em que abri a fralda para retirá-la fui surpreendido por um chafariz de xixi bem no meio da cara.

Zoraide riu!

Eu ri!

Filhos, quem tem, tem histórias!


*Onomatopeia - é uma figura de linguagem na qual se reproduz um som com um fonema ou palavra.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

OUTROS PECADOS (2)

Poema do meu livro “LIMITAÇÕES”


Sinto às vezes,
dentro de qualquer igreja,
todos os pecados
voejando como morcegos;
e eu, quase levanto voo.
São os meus morcegos
querendo ir ao encontro
dos outros pecados.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

A DIFERENÇA DO QUE INCOMODA A CADA UM DE NÓS (2)

Dois caboclos conversando no ermo da floresta após um dia todo de luta, com enxadas e machados, preparando um terreno para plantar.
- Cumpadi, andei pensando comigo um “trem” diferente.
- O que é que é? – disse o cumpadre.
- Cê já reparou que existe o Sol?
- Cunversa besta ... Quem não!!!
- Intonce, esta noite num consegui drumi pensano no assunto.
- Eita!
- Virava de uma banda pra outra e o assunto não desgrudava da mente.
- Uai sô, conta o causo que tô ficano curioso!
- É que fiquei pensano quando acabar a luz do Sol, se já pensou na tranquera que vai sê?
- Rapaz, é verdade. Nunquinha que eu pensei nisso.
- Intonce, é ou num é de ficar sem sono?
- É verdade! Agora to incomodado tamém. Quem que joga lenha naquele braseiro lá? Uai, tem que ter alguém jogano lenha pra manter aquele troço aceso, né não?
- Foi isso cumpadi, foi isso que me deixou mais aceso que o Sol. Quem será que segura aquela brasa acesa. Quem?
- Hum, hum, hum, acho que num vamo sabe disso! – finaliza o compadre.
Durante um tempo os dois olhavam para Sol que entrava através dos galhos das árvores e era possível ver em suas feições o questionamento que aparecera. Dentro de suas limitações tentavam entender como o Sol se mantinha aceso todos os dias.
- Vô chegano qui tá na hora.
- Inté Cumpadre!
Enquanto via o compadre partir ficou sentado pensando sobre o assunto. Quem acendeu o Sol? Quando é que vai apagar o fogo? Se apagar, pensava ele, vai morrer tudo por aqui. Por algum tempo ficaria incomodado com a questão:

“E se o Sol apagar?”


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

SOBRE A COMUNICAÇÃO (2)

Felipe, cujo trabalho era de programador em computação, acordou mais tarde naquele dia e encontrou um bilhete da esposa em cima da mesa da cozinha: “Querido, passe no Supermercado e traga leite, se tiver bananas, traga 12”.
No final da tarde, chegando em casa, deixou a encomenda em cima da mesa e foi direto para o banho. Quando sua esposa viu 12 litros de leite em cima da mesa ficou perplexa.
- Felipe? Felipe? – chamou.
Ele dentro do banheiro e com chuveiro ligado responde:
- Me chamou? Estou no banho!
- Está bem, depois conversamos.
Felipe sai do banheiro, com a cara de quem havia tomado uma boa chuveirada e pergunta:
- Que foi Deise?
Ela responde a pergunta com uma pergunta (Isto é coisa de franciscano e deveria fazer parte de outro texto qualquer.):
- Porque você trouxe 12 litros de leite?
- Ué amor, trouxe apenas o que você pediu, era para trazer mais?
- Mas eu não pedi 12 litros de leite!!!
- Pediu sim, guardei seu bilhete e posso provar.
Ela não se conteve e pediu:
- OK, mostre o bilhete!
Felipe foi até o banheiro e, do bolso da calça, retirou o bilhete amassado.
- Está aqui! – apresentando o pequeno bilhete e completando – Você disse que era para trazer leite e, se tivesse bananas, para trazer 12. Foi o que fiz. Fui à seção de frutas verificar se havia banana. Positivo, havia banana. Voltei ao setor de laticínios e peguei os 12 litros de leite. Simples!!!
A lógica da comunicação no entendimento do programador estava perfeita. Deise ficou atônita com a explicação que dava resposta a sua exclamação:
- Mas eu não pedi 12 litros de leite!!!
A brincadeira acima é uma piada que roda o mundo, na área de computação, assim como existem outras onde a “lógica”, muitas vezes distorcida, chega a explicar o inexplicável.

Deise que o diga!

Tenho certeza de que Deise, na próxima vez, pedirá em seu bilhete:

“Querido, compre:
1 litro de leite
12 bananas”.
Não tem erro!



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

POSSO AJUDAR? (2)

- Posso ajudar?
É comum, hoje em dia, nas camisetas dos funcionários de algumas empresas a frase: “POSSO AJUDAR?”
Dentro da empresa, seja qual for, a mensagem é entendida e aceita por todos. Quantas pessoas não se socorreram destes atendentes. Mas se nos voltarmos para o dia-a-dia não acreditamos na frase ou na intenção: “Posso ajudar?”.
É simples, você fura um pneu e chega alguém parecendo oferecer ajuda. Seu sensor de perigo começa funcionar. Provavelmente você já foi assaltado. Se não foi você, foi seu pai, seu filho, sua esposa, seu tio, SEUS vizinhos... Alguém conhecido foi! O local onde você está é, de certa forma, ermo. Passa um aqui, outro ali, que não estão nem aí para o seu pneu. Menos ainda para você. Você engole seco. A “ajuda” vem vindo:
- E aí tio, que furada hem!
Você tenta (Sim, tenta!) tomar uma atitude segura, mas sabe que no fundo está desconfortável pra não dizer APAVORADO!
- É verdade. – responde sem dar muita atenção e com a autossuficiência beirando o colapso. Embora imperceptíveis, suas mãos tremem. O medo vai desestabilizando tudo...
Seus pensamentos estão em: “Onde é mesmo que fica o macaco?”. O sol a pino com termômetros na marca dos 39ºC. O calor produz o suor que escorre por seu rosto e o receio dobra a transpiração. Seus pensamentos não se coordenam, não são lógicos. Sua sensação de segurança está batendo em “0”.
- Quer que eu troco o pneu? – pergunta o menino.
Sim porque não passava de um menino. Mas hoje em dia menino de 15 anos está roubando, traficando, matando e estuprando numa boa. Que segurança se tem?! Neste momento uma “luzinha” se acendeu e ele respondeu no automático:
- Obrigado, o seguro já está chegando!
Entrou no carro fechou a porta, travou todas e ligou para a Seguradora. O menino se foi sem dizer mais nada. Ainda bem. Deu sorte!!!

Assim estamos nos dias de hoje, reféns da incompetência geral.

Até quando?


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

LIÇÃO (2)

Poema do meu livro “LIMITAÇÕES”

Pergunta a professora
ao pequenino José:
- Entre abstrato e concreto
o amor, menino, o que é?

Todo faceiro o pequeno
que nada tinha de quieto
responde àquela questão:
- Oras, o amor é concreto!

- Meu Deus! - aflige-se a mestra -
do que adiantou explicar?
Concreto é algo palpável,
é o que se pode pegar!

- Eu sei, professora, eu sei,
foi isso que respondi;
se existe algo concreto
mais que o Amor, nunca vi.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

A CRISTALEIRA (Abril/1985) (2)

Em cima e dentro da cristaleira estavam todas as porcelanas que acompanharam a sua vida. Cada peça era uma lembrança. Oitenta anos era tempo suficiente para juntar tantas coisas e para que estas mesmas coisas tivessem o valor que tinham. Sentada em sua cadeira preferida, olhava aquelas relíquias que a rodeavam. A solidão de sua velhice era espantada pelas xícaras, *camafeus, vasinhos e tantos outros objetos guardados. Cada dia ela se detinha em uma daquelas peças e repassava os acontecimentos que trouxera aquela lembrança. As vezes, custava encontrar o fio da meada, havia passado tanto tempo... Alfredo, sim fora o seu querido Alfredo quem trouxera aquele **solitário chinês no segundo aniversário de casamento. Ele entrara em casa com um pequeno embrulho e um botão de rosa. Ela havia desembrulhado com cuidado o presente, gozando todo o minuto que antecedia a surpresa; peculiaridade constante de sua vida. Jamais se apressava em descobrir nada. Nunca! Aproveitava para imaginar, sonhar... Jamais quis nada mais do que estava embrulhado ou destinado para si, apenas precisava sonhar. Tinha consigo que, no dia em que não se lembrasse de mais nada morreria ou estaria para morrer; assim, como se fora o seu trabalho, a cada dia, um dos objetos era focalizado, como o solitário chinês.
Hoje, ela se levantou mais cedo que de costume, foi até o fogão e preparou um chá como nos últimos trinta anos. Sentou-se em sua cadeira, ajeitou o chalé em suas costas, pegou a xícara de chá e sorveu um gole. Não olhava agora para nenhum objeto e sim para a ***cristaleira. Toda trabalhada e entalhada com cristais lapidados a mão. Seu rosto mostrava perplexidade, fazia um esforço enorme enquanto olhava aquela peça feita por mãos tão habilidosas. Seu rosto, cheio de rugas, neste instante de apreensão deformou-se mais ainda. Não conseguia lembrar-se de como adquirira a cristaleira. Esta cristaleira... Seis horas da tarde, num gesto mecânico tomou o terço em suas mãos e... ainda bem, das orações ela não se esquecera; desfiou o rosário movendo os lábios sem emitir som.
Esta cristaleira... Dormiu.
Seu sono foi agitado, nervoso. Quando pela manhã entrou a primeira ****réstia de luz sala adentro, seu semblante estava calmo. Havia um *****halo de luz em seu rosto, como se ela soubesse de tudo.
Seus olhos estavam fixos na cristaleira.


*Camafeu - (do latim Cammaeus, que significa pedra esculpida) é uma técnica de escultura usada em jóias de modo a formar uma figura em relevo (em oposição a entalhe) tirando partido da existência de camadas sobrepostas de cores diferentes. Tradicionalmente essa técnica é feita em broches e pingentes.
**Solitário – vaso feito para uma única flor.
***Cristaleira - s.f. Espécie de armário envidraçado em que se guardam e exibem os cristais e louças.
****Réstia - s.f. - Feixe de luz que passa através de um orifício ou abertura estreita.
*****Halo - s.m. Círculo de luz. Auréola de luz que aparece sobre a cabeça de uma pessoa santificada ou de uma imagem sagrada.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CUMPLICIDADE (2)

Fim de tarde. Dia quente e cheio de trabalho. Pensei em finalizar o calor e o trabalho com uma boa cerveja. Sentado, saboreando cada gole, reparei no casal de idade que caminhava de mãos dadas. Lentamente. Vinham pela calçada em minha direção. Percebia que a conversa era animada entrecortada por pequenos sorrisos. Ela se apoiava em seus braços por segurança; ele a apoiava, nunca fora diferente. Aqueles dois estavam trazendo descanso ao meu espírito já que o corpo ainda estava cansado. Fiquei observando pequenos detalhes e os gestos atenciosos de ambos. A tranquilidade de um casal que viveu um para o outro. A cumplicidade flagrante! Um exemplo naquele fim de tarde desta Primavera quente.
O sol caindo no horizonte espalhava suas sombras pelo chão.

Fez-me lembrar de um poeminho que fiz há mais de 20 anos:

COMO SOMBRAS

Somos como sombras,
longas sombras da tarde,
espreguiçando gostoso
por sobre o morno da rua...
a minha sombra e a sua.