sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

NO CONFORTO PESSOAL

Cheguei a uma idade onde me permito escolher onde estar e com quem conviver. Fica comigo a nítida impressão de que estar em um local com pessoas com as quais não convivi não é confortável. Não temos assunto em comum. Podemos até ser conhecidos, mas se não convivemos por 50 anos ou mais, a reunião será formal e com urgência de acabar: enfadonha. Pode até ser chata. Não vejo finalidade.

Vai agregar nada a coisa nenhuma!

Não, não preciso mais disto. Estou liberto pela longevidade que estão alcançando os meus setenta e dois anos, prefiro estacionar onde estou bem. Ao longo dos anos vamos criando pequenos vícios que serão conflitantes com ajuntamentos de pessoas alheias a estes defeitos ou atitudes. Vamos ser discriminados e, consequentemente, fora do ambiente. Lugar onde não sei o nome das pessoas é estranho. Onde a maioria dos rostos é desconhecida. Parece que estou em uma fila para cinema. Vamos todos para o mesmo lugar, mas não sabemos quem é quem. Pelo menos nesta fila sabemos que a finalidade é assistir um filme, então não existe contato, é mantida a minha privacidade mesmo que em meio a uma multidão.

Minha misantropia se assoberbará neste grupo de pessoas, vou acabar me escondendo em minha carapaça protetora. Não estarei presente onde presente não me sinto. Não estive antes, assim não estou agora!

Chegar até onde cheguei me dá este direito. É uma forma de opção. Não é ofensiva, pois não tem esta direção, é apenas uma escolha livre e confortável para mim.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

SOU FELIZ NOVAMENTE

Não pretendo jamais
Ver a inconsequente
Que roubou minha paz
Que levou meu presente

Já sofri o que pude
Com você sempre ausente
Hoje mudo a atitude
Definitivamente

Outro amor encontrei
De presente ganhei
Incondicionalmente

Esqueci do teu rosto
E com tudo isto posto

Sou feliz novamente


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PEQUENO POEMA UNIVERSAL

Andando sempre tão quietos,
são gatos pardos no muro
em altas horas da noite
que a noite tem aventuras.

E fazem a ronda e rodeiam
às voltas consigo mesmos,
são gatos que já passaram
no mesmo lugar em cisma.

Nestes volteios do mundo
que o mundo também volteia,
ficam as marcas do tempo
na cara de quem passeia.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

FÉRIAS

Sinto-me cansado.
Cansado demais.
Sobrecarga de cansaço acumulado
das promessas divinas...,
das juras de amor...,
de tudo afinal.
Cheguei ao cansaço terminal.
Adeus! Vou partir
numa longa e tediosa viagem
de descanso.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

É TUDO TÃO DOLORIDO

Seu rosto pálido
num corpo fúnebre
vai no cortejo
ser carregado.

E dou adeus
com olhos úmidos
que são meus olhos
quando tristonhos

E pego a alça
do seu caixão
e, solidário
vou carregando.

Pela alameda
e pelas ruas
chora uma irmã
onde eram duas.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PREFERÊNCIAS

Alguém que passa a vida em solidão,
tendo alegria nesta orfandade,
não há de entender, nunca, a razão
do amontoado da comunidade.

Tal um camelo em circo, solitário,
preso a uma jaula em meio a multidão,
eu sou assim, tal qual o dromedário
sinto-me preso e observado então.



sábado, 17 de dezembro de 2016

VIAJANTE

Cansei-me do asfalto.
Vou galopar pela Via Láctea.
Brigarei com a Ursa Maior
depois, caio nos braços de Vênus.
Asfalto...cansaço.
Aquela faixa amarela,
faixa amarela,
faixa amarela.
Costuradas no centro da rodovia
parece-me uma das pernas
da calça do mundo.
Jeans do universo.
Tenho um sono doentio
contra as estradas.
Acorda!
Talvez 40G, talvez menos.
Vejo naquele topo um lago,
um lago fluído,
que não vira nada.
Desolando a paisagem
e sufocando o caminho
somente cana,
cultura, monocultura,
quilômetros e quilômetros.
Este rio já conheço,
aqui já pesquei
num Setembro primaveril
sem peixes.
Chego logo ao meu destino,
Que o meu destino é chegar
Do lugar onde estiver
Pra qualquer outro lugar.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

QUANDO NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Eu te espero em mais um dia que se finda,
em mais um por do sol do náufrago amante
e na mistura de cores deste céu errante
prevejo mil amores e te espero ainda.

E nesta longa espera, sozinho, amargurado,
sinto o frio destas noites frias
que não são noites pois, sempre acordado,
não vejo noites, senão outros dias.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

MORTE

...Vi a folha da árvore. Seca,
amarelada e torcida,
no meio das folhas verdes.
Um verde quase ofensivo,
era o verde esquecido;
da oliva, do mar, qualquer um...
No momento em que eu olhava
a folha se despregou,
frágil, leve.
Caiu,
do verde de sua árvore
para o túmulo verde do chão.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

LÓGICA ABSURDA

Subindo rumo ao céu
lá vão os prédios
cada vez mais altos.
Andaime por andaime,
desenhando nos espaços vazios,
superpostos,
a concretinice urbana.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ECOS

Ecos ouvidos na noite.
De quem serão? Vêm batendo
pelas rochas estes ecos.


Serão os meus ancestrais
que moram longe de mim?

Será que em algum lugar
algum anjo do Senhor,
um tanto desavisado
começa a ressurreição?



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

PELAS RUAS

Vou pelas ruas
de paredes nuas
cheias de cantos e janelas.
O asfalto mole de sol
como o nosso corpo.
Retrato do desinteresse
faço coro com o mundo
que atola no desagrado
da própria incompreensão.
O semáforo abriu passagem
para todos os caminhos;
e eu, paro a olhar, abismado,
quanta gente tem aqui
vindas daquela calçada.
Fico intrigado e atento.
De onde sai tanta gente
que olhando não dá pra ver?
Parecem brotar do chão.
Deve ter sido aqui,
neste exato lugar,
que Deus criou a Eva
depois de inventar Adão.



sábado, 10 de dezembro de 2016

SOBRE UM VERSO

No terceiro verso
da segunda estrofe
tem um erro crasso
de acentuação.
Se foi erro gráfico
isto não importa
este ponto estático
não muda sentido.
Falha ortográfica
distrai o leitor,
culpe o revisor
que não viu acento.
Não culpe o poeta
pois faz muito tempo
saiu da escola
e anda se escondendo
e não quer voltar.
Ele tem um óculos
de velha receita
que lhe turva a vista
e sua oculista
já se aposentou.





sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A CULPA DE QUEM NÃO TEM

Trabalho e suor
resume a vida
do trabalhador

patrão repressor
apertando a lida
eterno senhor

criando o rancor
abrindo a ferida
aumentando a dor

mudando o valor
trocando a medida
o provocador

fará do feitor
a sua valida
no gladiador

que a massa em clamor
num gesto homicida
e exterminador

perdendo o temor
em louca investida
para o incitador

na arena do horror
daquela sortida
foi receptor

de todo o pavor
da raiva contida
do trabalhador.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DOR E RAIVA

Nestes dias quentes de Verão,
quando o sol em sua plenitude
seca as águas todas do sertão,
vejo a terra como um ataúde
a engolir a vaca e até o açude
sob o olhar atento do vaqueiro,
que anda magro, seco e sem saúde.
Tudo que o rodeia é um necrotério
e sua mágoa é quase um reverbério
contra Deus que manda um sol coveiro
transformar sua terra em cemitério.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

DESESPERO

Uma dor, tão grande dor!
Sufoca, enlouquece,
e quanto mais sofro,
mais ela cresce.
Mórbida.
Única.
Prende-se a mim
como uma enorme túnica,
pérfida, sórdida.
Beija-me como um Judas,
e me agrada.
Oh! dor malvada!
Me deixe!
Sorte!
Me ajuda!
Por quê? Porque desta loucura?
Deste mal que não desgruda?
Faz tanto tempo que perdura!
Por quê?
Perdido o amor num mar de tédio,
não creio que haja então remédio,
o mal que tenho, não tem cura.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

PRAGMÁTICA

Percebo, às vezes, uma vida que não vejo;
que vive em volta de mim.
Nas minhas coordenadas tem mais gente
daquela dimensão paralela.
Negativos do passado, histórias sem fim
de toda história.
Mais um projeto da Divina Inteligência,
um filme que se passa e sempre.
Podemos agir com esta outra dimensão;
interagir, não!
Esta enciclopédia fantasmagórica
assusta aos desapercebidos,
enriquece a quem a usa.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

OFERENDA

Para Mário Quintana

Mais doce que o cantar do grilo
só mesmo o seu cantar.
Onde estava
que não ouvia os grilos?
Percebi, vagamente, os vagalumes
clareando a noite, mas...
grilos, não ouvi.
Perdi-me no universo
em aventuras
e até...acredite!
Nasci do ventre bojudo da Lua.
Na vastidão do Universo
inteiro
pobre de mim! Grilos não vi!
Vi, algumas vezes, os anjos e querubins,
que ficam nos átrios imensos das igrejas.
Tão sós,coitados!
E vi, cansado de amanhecer
o dia nascendo...
Vermelho de dor.
Mas...grilos não vi!
Mais doce que o cantar do grilo
só mesmo o seu cantar, Quintana.