domingo, 30 de outubro de 2016

PROGRESSO

Neste tempo de queimada
Tudo é sujo.
Além de queimada, vento.
E quando chove, a chuva é preta
Das cinzas dos canaviais.
Entre as cinzas dos canaviais
Vivem os boias-frias
E as donas de casa
Que varrem e amontoam
O progresso da região...


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

CAFÉ – “coffea arábica”

Levantei-me para tomar um café e me peguei pensando: “Quando e como o café chegou ao Brasil?”. A indagação me trouxe outras curiosidades a respeito do nosso cafezinho. Tem muito mais a ser visto a respeito além da minha resumida transcrição abaixo. Bendita internet que facilita as nossas pesquisas.

O café chegou ao Brasil em 1727. Quem trouxe foi o Sargento-Mor Francisco de Mello Palheta a pedido do governador do Maranhão e Grão Pará, que o enviara à Guiana Francesa com essa missão.

O folclore brasileiro rendeu muito com o café, dizem que traz sorte:

· Beber café na xícara do marido.
· Emprestar café no dia de sexta-feira.
· Para a noiva ser feliz no casamento, a primeira peça do enxoval deve ser um coador de café.
· Se o café quente cai por descuido na roupa (principalmente se for branca), traz sorte.

Da mesma forma dizem que dá azar:

· Moça que derruba o bule de café no chão não casará.
· Torrar café no dia de domingo.
· Jogar um pouco de café atrás da porta espanta a visita.
· Se o café for torrado por uma pessoa com coração ruim, ele não rende e fica ruim.

Alguns benefícios do café para a saúde:

· Ajuda a melhorar a respiração se ela apresentar algum problema.
· A cafeína aparece na composição de muitos analgésicos, pois ajuda a amenizar dores.
· Alivia principalmente dores de cabeça e trata crises de enxaquecas.
· Controla um pouco as alergias.
· É muito utilizado para controle de peso.
· Aumenta o estado de alerta das pessoas.
· Apresenta propriedades antioxidantes.

Além das músicas abaixo, existem muitas outras:

João Donato – “Café com pão”
Roberto Carlos – “Café da Manhã”
Chico Buarque – “Cotidiano”
Marisa Montes, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown – Não é fácil”.

No repertório internacional uma infinidade de composições onde o café é o tema principal.

Encontrei este pensamento do poeta Mario Quintana: “O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo, saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas-na-manteiga que alguém pediu na mesa próxima”. Na poesia de Manuel Bandeira, “Trem de ferro”, o café faz parte da composição.

Um pouco de humor com café. Em uma conversa com Lady Astor, Churchill foi mais que irônico.

“Lady Astor:
Se eu fosse casada com você, colocaria veneno no seu café.
Ao que rapidamente Churchill respondeu:
Se eu fosse casado com você, eu o beberia.”

Claro que me interessei por encontrar livros sobre o café. Veja alguns:
Mário Souto Maior publicou “Alimentação e Folclore”.
Marina de Andrade Marconi publicou “Folclore do Café” e
Mário de Andrade, “Café”.

Não era nada disto que pretendia, estava apenas necessitando de um café. Saboreá-lo acompanhado de um cigarro. Quieto. Aproveitando o momento para ver a vida ao redor. Para verificar que estou vivo olhando o verde que enche meus olhos. Ouvindo e tentando descobrir qual pássaro está cantando. Olhando o pote de água dos cachorros para conferir a quantidade. Não percebemos, devido à alta umidade deste tempo chuvoso, mas os ventos ressecam as plantas dos vasos que, em algum momento mostram as folhas ressentidas. Vou molhar!

Desta forma o café, tomado aos goles vai se acabando.

Apago o cigarro após a última tragada e volto as minhas atividades.

Muito bom um cafezinho!



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

SOBRE A EDUCAÇÃO

Pouquíssimas pessoas tem a capacidade completa de juntar e transmitir: o saber, a palavra, a didática e a eloquência.

Saber, que se refere ao conhecimento o mais abrangente possível; a palavra, repositório de termos que socorrem absolutamente no discurso; a didática, a maneira de transformar todo este saber e entendimento das palavras de forma clara e a eloquência, que pode ser substituída pela oratória ou retórica.

É possível acrescentar aqui o gestual, a expressão corpórea como complemento. De fato, um complemento importante e significativo. Existe aquele momento em que o gesto correto, juntando-se a palavra, finaliza de forma maravilhosa a ideia proposta.

Divagando sobre o assunto, penso que estas capacidades deveriam ser exigidas dos professores. Aquele que vai ensinar teria que ter a sua disposição o aprendizado que o levasse a estar inserido dentro destes conceitos acima. Professores com estas capacidades não teriam alunos dispersos, desinteressados, faltosos. Ao contrário, professores como estes trariam de volta o interesse dos alunos no estudo. Trariam os alunos para dentro das classes.

E existem professores assim?

Sim, muito poucos, mas existem. É lamentável porque a Educação em nosso País anda despencando ladeira abaixo. São estes poucos e abnegados professores que conseguem perceber, intuitivamente, a necessidade de passar não apenas o conhecimento em si, mas principalmente o despertar do interesse no aluno. Isto é conseguido pelo lado motivador deste mestre e é aqui, na motivação, que o bom mestre se mostra. Estes excelentes professores cursaram o mesmo ensino dos outros, porque a diferença tão grande na forma de transmitir? Simples: Um quer ensinar o outro precisa ganhar o pão de cada dia. O motor que move o primeiro tem mais potência educadora, melhor: Tem toda!

No detalhe: os dois ganham o mesmo salário.


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A INSPIRAÇÃO

O instante da criação em qualquer um de nós está vinculado a uma emoção de momento. É o que acontece. Quando vemos estamos escrevendo, pintando, compondo ou o que valha para a tendência artística de cada um. Somos reféns neste momento de uma necessidade imediata de agir, de fazer. O intelecto tomando conta do físico, administrando a ação com objetivos específicos: criar. Somos, quando criadores, livres e autênticos. Não sofremos ingerências neste processo criativo que nos movimenta. Influências, sim, é possível; por diversas maneiras recebemos influências em nossa vida.

Inspiração, esta é a chave do instante da criação. É fundamental!

A liberdade da criação é algo encantador, único.

Uma grande maioria dos artistas deve a formação familiar, em primeiro lugar, e cultural logo após, a bagagem para muitas das suas atividades artísticas. Sem dúvida, aí estão pontos de apoio e influência em nossa formação artística. Fica bonita a explicação que se completa com a simplicidade do autor dos versos abaixo, que aprendeu com o pai a tocar violão e cavaquinho:

“Queixo-me as rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti...”

Agenor de Oliveira, tendo apenas o primário fez os versos acima, poesia pura. Aos quinze anos perdeu a mãe e foi trabalhar como servente de obra. Para se proteger do cimento que caia das paredes começou a usar um chapéu-coco que lhe trouxe o apelido de Cartola.

Da forma como me expressei no início, parece que apenas pessoas com famílias estruturadas teriam inspiração para qualquer Arte. Não é assim! A inspiração não escolhe a pessoa pela sua estrutura familiar ou formação, ela apenas se achega em alguém e se instala. Quase uma roleta.

Pablo Picasso definiu bem: “Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando”.


sábado, 22 de outubro de 2016

VINGANÇA

“Velho relógio de cuco, tão velho! Parecia estar naquela parede desde os primórdios do mundo. Assim mostrava o seu canto milenar”.

O relógio
da parede
era um cuco.

Cada quarto
de uma hora:
- Cuco cuco

E a cada
meia hora:
- Cuco cuco

Na hora inteira
esse cuco
silenciava.

Velho cuco
todo sujo
esquecido

Picumãs
falta de óleo
e atenção.

Não dizia
só de raiva
hora inteira.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SOCORRO, SOCORRO, AJUDEM-ME!

- Socorro, socorro, ajudem-me!
Gritava em desespero.
Porém...gritava em vão,
Que os sons dos seus gritos,
Batiam nas paredes frias
E, de parede em parede,
Corria os becos.
Tão informal como o som das horas.
- Socorro, socorro, ajudem-me!
Esta frase pronta e tão aflita
É o apito noturno de um trem
Forte e lamentoso,
Fumacento
E só.
- Socorro, socorro, ajudem-me!
Parecia mesmo um guarda-noturno
Medieval, cansado,
Batendo o seu sino e anunciando:
- São três horas, tudo em ordem
- São três horas, tudo em ordem
- Socorro, ajudem-me!
É só um grito.
É uma cilada fujamos!
E o barulho do povo fugindo
Encobria o som do socorro
O som do relógio
Do apito do trem.

- Socorro, socorro, me levem também!


terça-feira, 18 de outubro de 2016

ALÉM DE TUDO

Além de tudo, está chovendo.
Não bastasse a própria vida
amarga e demorada,
infinita...
Bate um frio aqui;
e bate no meu peito
de um jeito que nunca vi.
E tudo neste fim de tarde,
parece um cartão postal
a recordar alguém
que nunca voltará.


domingo, 16 de outubro de 2016

TENTATIVA DE FUGA

Andei fugindo de uns versos que me assombravam.
(Gesto covarde!)
Um verso louco, impertinente
Me assombrava.
Os dias, as vezes, passavam sem novidade,
Calmos
E me esquecia do danado.
Qual! os versos não descansam
São, isto sim, almas penadas
À espera da libertação.
Aí, o milagre se faz
E o verso vira ave, ninho, amor
Sonetado, em trovas ou livre...
Disseram que não é livre,
É uma lareira,
Luz e calor.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

OFENSA

Espectral como um fantasma.
Álgida.
Atenta há dois séculos
Ao seu derredor,
Gravou no seu bronze
A vida e a morte.
O caso e o acaso.
E
Sob a garoa dolorida daqueles dias,
Mansa e chorosa,
Conheceu
Os pássaros todos,
E viu os seus voos e lhes deu descanso.
Conheceu
Cada casa e árvore que a cercava
No meio daquela praça.
Impotente,
Sentiu a urina dos homens
Nas horas de solidão,
Em toda a sua representativa imponência.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

ÁRVORE DA VIDA

Sou como a jabuticabeira
que demora a dar frutos.
Desenvolvo lentamente no pomar da vida.
Sob a minha copa darei abrigo,
nos causticantes dias de verão.
Serão meus frutos do trabalho,
e terão o sabor do tempo que fizer
com a abundância que Deus permitir.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O TREM

O trem partia lento e arrastado,
resfolegando como um animal
fazia um esforço tão desesperado
essa serpente enorme de metal!

Sempre emoção trazia a despedida
no grito rouco do apito do trem.
Alguém ficava olhando a quem partia
e quem partia olhava sempre alguém.

Hoje a partida não mudou em nada
e a dor que fica é uma dor danada
não dói na hora, mas depois se tem

aquela dor, a mesma emoção.
O que ficou só na imaginação
foi a saudade de partir de trem.


sábado, 8 de outubro de 2016

COMO ACONTECE

Melhor que silencie este momento
Que a quietude, sim, será suficiente.
Neste instante passado fui atento,
E estarei vigilante no presente.

Toda a atenção que lhe ofereço é plena,
É viva, é doce, é quase uma poesia,
E sendo assim, é mais do que um poema
O meu cuidado e presencial vigília.

Então será o amor que ofereço,
Oferecido o meu amor confesso
Que é puro e casto embora sem pudor.
O verdadeiro amor tem dupla face
Como se a vida já nos preparasse
Desde o princípio o verdadeiro amor.




quinta-feira, 6 de outubro de 2016

TEMPOS SILENCIOSOS

No silêncio, tão denso que comporta um discurso,
Existirão sorrisos ou lágrimas.
Que palavras falar
Quando falar não é preciso.
Você percebe, sente o arrepio que te alcança,
E onde era impossível chega um sopro de esperança.

E que meu tempo não mude jamais,
Para que quando neste tempo silencioso
Possa aproveitar a sabedoria neste modo torto
Pois é do silêncio, destas horas quietas,
Que me chegará conforto.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

ACONTECE TODA HORA

Quando foi que ouvi pela última vez: “Cuidado!”. Esta é uma interjeição de prudência, atenção, cautela.

- Cuidado!!!

Os prontos-socorros e hospitais recebem diariamente uma quantidade enorme de crianças com ossos quebrados. É bom que se observe que o osso nas crianças é mais flexível. Ainda assim são acidentes das mais variadas origens: correndo, jogando, andando de bicicleta, queda de braço e, por aí vai.

- O que aconteceu com ele senhora? – pergunta o médico.

- Um amigo disse que ele queria voar e pulou de cima do muro. – respondeu a mãe desarvorada com a gritaria do menino.

O médico segurou o riso devido à situação.

- Pode ser uma fratura, embora acredite que tenha quebrado o braço. Vamos fazer um raio-X.

O menino de dez anos gritava de dor.

Muitas vezes durante a infância ouvi: “Cuidado!”. Nem sempre me dei conta desta interjeição. Explicando melhor, deixei de ouvir travestido de uma autoconfiança que só o menino tem. O perigo não tem o mesmo sentido para o ouvido do menino, para o seu entendimento. Não é coragem, é muito mais a atitude temerária do aventureiro que está em cada um de nós nesta idade. A inocência de se acreditar herói. Típico! A quantidade de ossos quebrados responde por esta ação infantil. A prudência não faz parte do menino que está descobrindo o que pode ou não. A tentativa é uma possibilidade real mesmo que, penso hoje, impossível naquele momento.

Como explicar isto a um menino que está super-herói. Diga:

- Como?


domingo, 2 de outubro de 2016

LEMBRANÇAS DA ESCOLA

A necessária gratidão aos mestres nem sempre é observada. Nem sempre é prestada. Nem sempre...

- Quem foi a sua primeira professora ou professor?

Afinal, quem foi a minha professora do 1º ano escolar? Quem foi aquela que me fez entender como juntar as letras e formar palavras?

Aquela que me ensinou a tabuada, quem foi? Tenho lembrança de que era uma professora, não sei seu nome e não tenho boletins ou qualquer coisa que valha para identificá-la. Sei que aprendi a ler e fazer contas. Sei que aquela professora foi a responsável.

Estou constrangido visto que não sei!

Hoje, em algum momento, por alguma razão, pensei sobre a minha primeira escola, sobre esta professora.

Tenho a lembrança de ficarmos em fila e cantarmos um hino. Não sei qual deles. Sem segurança alguma tenho a recordação do Hino a Bandeira: “Salve lindo pendão da esperança! Salve símbolo augusto da paz!...”. Após cantarmos íamos em fila dupla para nossas salas. Cada classe tinha sua fila. Lembro-me vagamente de um caderno de caligrafia. Vem-me a lembrança fragmentos da mão suave que segurava a minha encaminhando meus traços dentro das linhas específicas. Existe um cheiro, um perfume qualquer nestas lembranças da minha desconhecida professora. Fica em minha memória a sensação de que chegava a um lugar de aprender e tudo era voltado para que aprendesse.

À hora do recreio tínhamos um lanche e, invariavelmente, na época das figurinhas, jogávamos “bafo” ou, em outras oportunidades bola de gude. Era o momento de trocarmos as figurinhas. As carimbadas tinham um valor bastante grande e dava como retorno um punhado de figurinhas simples que eram usadas para jogarmos. O futebol nunca foi meu esporte, mas à época das figurinhas havia feito uma opção pelo São Paulo Futebol Clube.

O sinal tocava e voltávamos para a classe...

Tento buscar em minha memória a imagem daquela professora, não consigo visualizá-la. Não consigo! Mas em meu coração existe guardada a sua presença entre as lembranças mais agradáveis que a vida me proporcionou.

- Até amanhã professora!