quinta-feira, 31 de março de 2016

A DESCONFIANÇA

Não sei se é pelo que já vivemos e pelos absurdos mostrados todos os dias, a desconfiança tornou-se um instrumento de defesa bastante atuante. Como se diz: “Gato escaldado com água quente, tem medo de água fria”. É assim!

Até para ajudar alguém, ficamos sempre com um pé atrás. Será o inimigo?

Seria longa a comparação entre as situações de época, mesmo porque elas se dão em tempos muito diferentes. É verdade que poucos viveram por este período maravilhoso deste nosso País. Estou falando de 1953 com meus oito anos.

Minhas lembranças me levam ao tempo em que íamos a pé, andando por cinco ou seis quarteirões sem pensar em ladrões, bandidos, drogados apenas, aproveitando o passeio até a praça central de Avaré-SP, onde morávamos.

Meu pai e minha mãe nos levavam nesta praça, aos Domingos, local onde havia um espelho de água com chafariz e holofotes que criavam reflexos nas gotas. Sentávamos na beira da fonte que era para mim, naquela idade, bastante grande. Lembro-me de ficar tentando pegar os girinos (Filhotes de sapo, rã ou perereca). A fonte tinha muitos e era diversão para a molecada. Meu pai e minha mãe andavam um pouco em torno do passeio que rodeava aquele espelho d’água e depois se sentavam apreciando. Eram muitas pessoas naquele começo de noite passeando por ali, o ponto de encontro de namorados, o que se chamava de footing (Em Inglês: ir a pé), onde as meninas desfilavam com sua melhor roupa passeando ao redor da praça e os meninos paqueravam sorrindo ou piscando.

Totalmente brega dirão todos nos dias de hoje. Sim é verdade, fora de época. Que pena!

Antes de voltarmos para casa, era sagrada uma parada em uma lanchonete para um lanche popular naquele tempo, chamávamos de “bauru”, era um filão com um bife competente, queijo e tomate. Sempre acompanhado de um refrigerante. Era tudo de bom!

Éramos mais ingênuos e assim, mais felizes. A desconfiança mencionada aqui levaria anos para entendermos o seu significado. 

Muitos anos.



quarta-feira, 30 de março de 2016

O HOMEM COMUM

Sou o homem comum
que sofre e continua...
Cuja cor é a do sol,
cuja vida é a luta.

Sou o lavrador cansado,
porém incansável.
Tenho o espírito da vida
e as mãos grossas.

Sou eu a própria roça
sou o milho e o café
sou a soja e o algodão
Sou João ou sou José.

Sim, eu sou comum.
Comum do trabalho
comum à lavoura,
como um ente explorado.

Sou irmão do cavalo
amigo do boi
meu braço é o arado
meu céu é este chão.

Sou o homem comum
que me planto aqui,
tentando, sempre tentando,
me enraizar e viver.

Sou o homem que pede
chuva em certos dias
e, em outros não,
deixando Deus meio louco.

Sou mesmo é um caipira,
sem valor nenhum
que alimenta este mundo,
a este mundo comum.


terça-feira, 29 de março de 2016

MOMENTOS DE DÚVIDA

De que servirá esta alma
que dentro de mim lateja
que minha carne esquarteja
embora pareça calma?

Alma e carne em desconforto,
as duas se contrariando,
O corpo em vida diz: "Mando!"
E a alma responde: "E morto?"

Opostos que não se atraem,
que vivem sempre assim, em
horripilante batalha.

- Serei alma ou sou matéria?
Minha carne é deletéria
e minh'alma é de um canalha.


segunda-feira, 28 de março de 2016

PERDÃO

Difícil pedir para alguns. Difícil de aceitar para outros.

Óticas diferentes para o mesmo assunto. A verdade é que não deveríamos permitir a necessidade de usar este pedido: o do “perdão”. Penso que seja impossível alguém não ter tido, em algum momento de sua vida, a necessidade de pedir perdão a alguém. É, é impossível! Se existiu, foi santo (a). Certo que, para a maioria de nós, temos diariamente um pedido de perdão a fazer. É bom notar que perdão está em uma escala de valor muito acima da desculpa.

Muito acima!

Desculpa se pede por derramar o café na mesa, pela toalha jogada no chão do banheiro, pela porta da geladeira aberta, pela luz deixada acesa fora de hora. Relembrando: a desculpa está classificada em grau bem inferior na escala de ofensas. Ela está mais para pequenos desastres diários.

Vamos ao pedido de perdão:

Solicito através deste requerimento o seu perdão. Abaixo assinado fulano de tal. Seria bom se assim fosse, estaria formalizado o pedido que deveria ser aceito com a rubrica do ofendido. Tudo legalizado em cartório com firma reconhecida. Perdão pedido e aceito sem possibilidade de reclamações posteriores. Seria a prova do pedido e, fundamental, a prova da aceitação. Quando a pessoa ofendida fosse lembrar-se do assunto, e isto acontece demais, o ofensor sacaria do seu documento de mágoa perdoada, de perdão aceito, pondo termo a um assunto que deveria estar esquecido visto que documentado.

Como não pensamos nisto antes? Como?

Sou um gênio!

Não, não sou, estou apenas “arranjando desculpas” para os meus pedidos de “perdões esquecidos”. Eles estão como em uma biblioteca sem bibliotecário (a), desarrumados e empoeirados pedindo para serem limpos. Interessante que coloquei as duas situações logo acima com a gravidade inerente a cada uma delas. Complicado!

Melhor seria não errar, mas como dizem: "Herrar é umano!”.



domingo, 27 de março de 2016

SIMPLES ASSIM

A chuva estava pesada fazia alguns dias. Era água que não acabava mais. Não me lembro de ter um Janeiro com tanta água. O solo já não conseguia absorver o excesso de chuva e as ruas estavam virando pequenos rios. Entre as calçadas, de um lado ao outro da rua, era água em muitos pontos da cidade; em alguns, já havia invasão dentro de algumas casas que tinham o terreno rebaixado. As enxurradas desciam com força dos pontos mais altos da cidade solapando a base de algumas árvores que já sentiam o estrago inclinando-se perigosamente. Alguém disse que uma ou duas já haviam caído no Bairro do Japonês. Nossa cidade era pequena e tinha as notícias espalhadas boca-a-boca rapidamente. Tudo era do conhecimento de todos.

- A casa do Alexandre está a ponto de cair – disse alguém.

- Tá brincando!

- Não é sério!

- O professor?

- É, ele mesmo! Estou indo lá para ver se posso ajudar.

- Vou também!

Em frente à casa do Alexandre havia pelo menos 30 pessoas ajudando a tirar os móveis e eletrodomésticos. Era um pequeno formigueiro trabalhando rapidamente. Percebia-se a inclinação do telhado. Havia um pequeno córrego nos fundos que, neste momento, era um rio raivoso e predador. O pequeno depósito que havia no quintal já havia sido levado pela correnteza e, parte da cozinha perdera uma das paredes. Ainda bem que vizinhos, amigos e passantes se envolveram e retiraram quase tudo que tinha valor da casa. Um dos vizinhos ofereceu um cômodo para que colocassem tudo protegido. Menos mal, o emocional estava abalado, mas o material estava salvo.

Embora dentro de uma situação catastrófica, estavam seguros. A solidariedade estava presente.

Alexandre e Sílvia, sua esposa, estavam tentando acalmar a filhinha de sete anos, Claudinha, que chorava desesperadamente.

- A tinica mamãe, cadê a tinica?

Tinica era o nome da gatinha que Alexandre e a esposa haviam dado no aniversário de seis anos para Claudinha. “Meu Deus, - pensou Alexandre - a tinica dormia no depósito que fora arrastado pela água”. Saiu perguntando para um e outro se não haviam visto a gatinha. Nada, nenhuma informação. Perguntaria aos dois vizinhos onde a gatinha já havia estado. Quem sabe? Nada também!

Começou uma gritaria na lateral da casa:

- Aquele menino vai cair e ser arrastado pela água, precisamos fazer alguma coisa!

- O quê se pode fazer?

- Está um pouco longe para alcançar, talvez uma corda.

O menino era o Serginho, vizinho e amigo da Claudinha. Tinha oito anos, mas era destas crianças resolvidas e ativas. Havia visto o gatinho e correu para pegá-lo. A água subia rapidamente e ele percebendo que poderia ser arrastado subiu na mangueira que havia nos fundos da casa do professor Alexandre; sempre com o gatinho a tiracolo. Ficou em um galho acima da correnteza segurando firmemente. É fácil imaginar a situação. Os pais do Serginho, neste momento, estavam desesperados. A água batia firme na base da mangueira e o medo de todos era de que fosse arrastada. Como era uma árvore bastante velha, suportava com valentia.

Neste momento apareceram dois jovens fortes e destemidos com um pedaço de corda bastante forte. Um deles se lançou na água e nadou até a mangueira. Amarrou o Serginho que não desgrudava do gatinho e pediu que o puxassem. Torcida geral e, pronto, Serginho estava salvo. Tinica também. Palmas para os heróis.

Os pais de Serginho correram abraçar o filho, em seguida o professor, a esposa e Claudinha se aproximaram e ouviram o final da conversa:

- Serginho, que loucura foi esta, meu filho?

- Fui salvar a gatinha da Claudinha mãe.

- Isto foi muito perigoso!

- Tinha que salvar porque ela é minha amiga.

- Você precisa pensar no risco que correu e no susto que nos fez passar.

O menino responde com naturalidade:

- Ela me dá metade do seu lanche, todos os dias, sem pensar.



sábado, 26 de março de 2016

A EXPRESSÃO: BOM DIA!

Alguém me dizia:

- Bom dia!

Muitas vezes respondi:

- Por quê?

E, posso garantir, fazia a cara que representasse muito bem a minha resposta: de pouco caso, desinteresse.

De vez em quando usei esta brincadeira que, dependendo da pessoa, não pegava muito bem. Outras ainda, mais chegadas, já usavam alguma expressão mais pesada como retorno da minha resposta que era, no mínimo, mal educada. Não sei de onde me veio esta ideia. Com certeza, me diverti muitas vezes com o inesperado com que muitas pessoas recebiam o meu “Por quê?”. No fundo era pura brincadeira da minha parte. Para algumas tive que perder um bom tempo me explicando.

- Bom dia!

Esta duas palavrinhas que podem mudar o dia de uma pessoa. Pode mudar de forma radical o que começou péssimo: o dia de hoje. Pode trazer um pouco de esperança: será um bom dia.

Que coisa mais gratuita e útil é esta: bom dia!

Traz sempre consigo um sorriso, pois quem diz deseja o melhor e, fatalmente, retorna um sorriso também. Quem recebe deveria receber como uma benção. Acredito que seja! Não, não acredito, tenho certeza. Temos muitas palavras que deveriam ser usadas constantemente, todo dia, a toda hora. Estas duas, penso que sejam as principais, começam o nosso dia.

Assim sendo desejo a você:

- Um bom dia!


sexta-feira, 25 de março de 2016

O PRESENTE

Olhava em volta e via a bagunça generalizada. Só não se lembrava da razão da festa. Sobre a mesa uma garrafa de vinho especial que alguém trouxera da Espanha. Espanha ou Portugal? Só lendo o rótulo na garrafa que não era visível naquela distância. Sem angústia ou stress. Está visível que o vinho se foi então, pra que saber a procedência. Garrafas, copos, pratos com restos de alimentos era o que se podia ver do ponto em que estava. Tinha um prato com queijos ao seu lado, apossou-se de um pequeno garfo e começou a mastigar um daqueles pequenos cubos enquanto olhava o cenário que estava a sua frente. Estava no estágio daquele que bebeu um pouco, mas não perdeu a noção geral. Sim, estava um pouco alterado, naquela alteração onde os sentidos não estão de todo desconectados, apenas levemente alcoolizados.

Seus pensamentos estavam em: “Para onde foi todo mundo?” Perguntava-se quando chegam sua mulher e os dois filhos.

- Onde vocês estavam?

- Fomos levar os seus pais em casa querido, – Responde a esposa – você estava cochilando tão tranquilo que preferimos não acordá-lo.

- Eu estava dormindo?

- Estava!

- Seu pai ficou muito feliz com a festa surpresa pelo aniversário dele.

- É verdade, foi uma bela festa.

- O relógio que você deu de presente o deixou muito feliz. – Disse a esposa acrescentando – Meninos, vamos dormir que esta tarde!

Nada iria tirá-lo daquele lugar agora, lembrava-se do que escutou de seu pai no momento em que lhe entregou o relógio:

- Meu filho, um relógio será muito importante para mim, pois tenho que usar todo o tempo que me resta para aproveitar a vida e mais, vivê-la plenamente. Estarei marcando cada hora, minuto e segundo com esta intenção. Seu presente me trouxe esta urgência: aproveitar a vida. Muito obrigado!

Ele amanheceu naquele mesmo lugar pensando nas palavras do pai, na urgência do pai: aproveitar a vida. Percebeu que sua vida necessitava de um relógio que lhe trouxesse a urgência de bem viver.


quinta-feira, 24 de março de 2016

UM HOMEM DE BEM

Quantas vezes não nos achamos mais do que somos...

Ouvindo as notícias da lava-jato, que repercutem diariamente em nossos aparelhos de televisão e na mídia em geral, vou ficando incrédulo com os absurdos a respeito da política e do seu uso. Acredito que seja a postura da maioria dos brasileiros. Não vou me apegar a partido político que não é o caso da minha análise; vou me ater ao homem na sua condição de representante do povo. Nesta condição, acredito que não conseguirei usar os dedos das mãos para salvar algum deles. Pelo menos é o que se vê. Quem sabe uma meia dúzia de gatos pingados.

Este fato assusta qualquer um!

Aí, escuto a notícia, vinda desta mesma lava-jato onde, um dos delatores cita o nome do Deputado Tiririca, aquele que é palhaço de formação, como sendo o que não foi corrompido; como sendo o que não aceitou suborno.

Sinto-me constrangido com a minha incapacidade de julgamento ou, melhor dizendo, com o meu pré-julgamento. Lembro-me perfeitamente de dizer que o Tiririca estava usando sua presença na mídia para eleger-se. Acredito mesmo, neste momento, que ele tenha sido levado por algum partido, por sua popularidade, com o intuito de ampliar a base de deputados no Congresso. É mais provável que tenha sido esta a razão. Foi!

Da sua figura artística para a sua postura como congressista tem a mudança de comportamento. Um dos únicos congressistas com 100% de participação em plenário: um funcionário do povo que faz justiça ao seu salário. Embora com poucos projetos de Lei, todos foram voltados, de alguma maneira, aos artistas circenses. Colocou-se de maneira coerente com sua atividade profissional representando a sua classe. Tirando a parte de seu pouco traquejo na área do Congresso Nacional, o que é normal para um primeiro mandato, senti meu orgulho de ser brasileiro representado na figura deste cidadão de bem.

Ele disse, quando da oferta de algumas centenas de milhares de reais para vetar projetos do Petrolão, que os filhos não iriam visitá-lo na prisão. Pediu que não voltassem a procurá-lo.

Aí me pergunto: “Será que sei votar?”.


quarta-feira, 23 de março de 2016

VAZIO

Quando tudo se perde, se esvai, 
o amor, a alegria, a paz,
o que fica a preencher a vida
se a vida não se preenche mais?

O zelo pelo nome? o amor
próprio? Certo só isso traz
sentido por tudo isso
que a vida não preenche mais.

Perdido o senso e o rumo
andando, mas só para trás
a vida que não preenchi,
jamais preencherei, jamais! 





TUDO A SEU TEMPO

Vento:

que traz reclamações das folhas que caem no início do Outono,

que informa do aumento da aids,

que diz da raiva vegetativa que assola o mundo contra os políticos,

que vem com uma prosa tola sobre a virada do século,

que andou soprando umas velas no Cabo da Boa Esperança,

que balançou as folhas do coqueiro,

que reclamou das suas clonagens nos ventiladores e, pior, das salas refrigeradas,

que alterou o rumo da flecha que acenderia a tocha olímpica,

que, na sua trajetória de furacão, envelhece em brisa e refresca.


segunda-feira, 21 de março de 2016

OBJETIVOS

Forçamos os nossos passos
que é necessário encontrar
os braços que os nossos braços
querem pra sempre abraçar.

E quando encontramos, temos
que neste abraço sentir
no mundo em que vivemos
razão para prosseguir.

Assim foi que enxerguei
e nos seus braços achei
razão para o meu viver.

Sem os seu braços, querida,
A morte é melhor que a vida.
- Perdê-los? - Melhor morrer.


BLOG - 100 DIAS ONLINE

No dia de hoje, 20.03.2016, o Blog está completando 100 dias de vida. Foram 11.152 visualizações e 148 matérias (Poesias e Crônicas).

Tem sido um trabalho, melhor dizendo, um desafio postar diariamente. Já comentei a respeito, mas vou me repetindo com a finalidade de me manter conectado e atuante.

Repito: difícil!

Quero agradecer aos amigos (as) que tem visitado o Blog permitindo este número de visualizações. Agradecer àqueles que comentaram demonstrando a sua mais efetiva participação.

Espero estar trazendo algo para cada um daqueles que por aqui navegam. É meu desejo poder, de alguma forma, trazer uma palavra de amizade, conforto, alegria através dos meus rabiscos. Longe de mim a pretensão de algo mais que meu simples compartilhar de ideias.

Muito obrigado!

Mário A G Leal


domingo, 20 de março de 2016

GRILHÕES

Cativo da esperança.
arregaço as mangas por esta quimera
e vou batalhando nesta longa espera,
calvário que em vida não se alcança.

Onde estará meu Gólgota,
que com minha vista, avistar não pude?
Que o mesmo cirineu que Te ajudou me ajude,
pois fiz de mim mesmo, um déspota.

E vejo que só a morte traz
o descanso afinal que se esperou.
De onde vim não sei. Nem pra onde vou.
Que seja apenas um lugar de Paz!



sexta-feira, 18 de março de 2016

RESPOSTAS

Deus! É o grito desesperado do ímpio,
Quando a luz do mundo se apaga.
Deus! É o grito - nove meses retido - do bebê que nasce.
Deus! É o grito da multidão faminta.
Deus! É o grito da mãe aflita.
Deus! É o grito - inaudível - da semente que rompe a casca.
Deus! É o grito do pássaro abatido.
Deus! É o grito das águas caindo em cachoeiras.
- Meu Deus! - grito eu - por que sendo tão barulhento,
És tão pouco notado?



quinta-feira, 17 de março de 2016

SEM MEDIDA

Sem medida esta saudade,
Sem formato e sem tamanho,
Somente a saudade doída
Doida saudade que tenho
Do tempo que em minha vida
Fui o grande aventureiro.
Desbravava formigueiro
Em busca de uma rainha
Para ser seu escudeiro
E ela fosse só minha.
E abria enorme cratera
Que virava uma trincheira
Ou toca de alguma fera.
Por vezes só me servia
Para arranjar um enguiço:
- Tampa esse furo já, já,
Veja que belo serviço,
Ou tampa ou vai apanhar!
Saudade do meu quintal,
Estranho mundo encantado.
Daquela mangueira enorme
Que hoje cansada dorme
A sonhar tal como eu,
Com o menino travesso.
Esta saudade danada
Despertando o que morreu.
Mora em mim esta mangueira,
Este menino sou eu.


quarta-feira, 16 de março de 2016

DESTINO

Com um disfarce de homem
Todo poeta se faz anjo.
Embora um anjo penado,
Também eu faço poesia.
Cantando amores perdidos
Que um anjo penado tem.
Sou um anjo depenado
Cantando para ninguém.


terça-feira, 15 de março de 2016

ANÚNCIO DE JORNAL

Pede-se a quem encontrou
documentos de fulano
que os guarde bem escondidos
que fulano não os quer.

Fulano, quer ser sicrano.
Incógnito. De uma vez!
Sem foto nem documento
sem impressão digital.

E a quem os encontrou pede:
guarde-os, assim como guarda
a lembrança de alguém morto,
que será gratificado.

Mas que jamais o procurem
que fulano não os quer.

Procurem outro qualquer.


segunda-feira, 14 de março de 2016

DAS ARTES

Para meu gosto, 

As penas dos anjos

Que ficam nas catedrais

- frias e silenciosas -

Arrancaria para enfeitar-te.

Daria, então, vida

A estas penas mortas.

E os anjos, dentro das catedrais,

Sorririam da minha arte

Na arte morta dos m
urais. 


domingo, 13 de março de 2016

O QUE TE PERTENCE

- Isto é meu!

Definitivamente, quase nada nos pertence. O objeto, o imóvel, o carro ficarão quando partimos desta para melhor. Serão sim, objetos de disputas e brigas na grande maioria das vezes. O que pode parecer um bem de valor nunca será seu. É assim provisório, temporal.

Somos na realidade prisioneiros daquilo que possuímos porque não entendemos, de fato, o valor das coisas neste Universo. A maior parte das pessoas é escrava do que têm. Estranho notar que para ter, temos que nos submeter ao “objeto”. Que laço triste e melancólico se cria na propriedade de um bem.

A liberdade de possuir pertence àquele que ultrapassou a barreira do material. O possuir sem comparar e sem disputas está enquanto o que temos, tem seu uso no valor específico da utilidade.

- Esta é minha casa!

Não tem que ser a melhor. Tem que ser usada da melhor maneira. Temos que ser felizes em nossas casas. Isto é possuir.

Na verdade o que nos pertence está localizado em nossa caixa craniana. É o que somos e como agimos. É comum usarmos o coração para acomodarmos determinados sentimentos. De forma bastante objetiva sabemos que está tudo partindo do cérebro. O que sem dúvida nos pertence é o que usamos a partir do nosso entendimento para nós mesmos e para os outros. Fazer a felicidade do outro é propriedade nossa e irá conosco quando partirmos deste mundo. É simples e complicado, mas não difícil de entender. A pessoa a quem você fazia feliz não terá mais a felicidade que você distribuía porque era sua a propriedade de torná-la feliz. Isto é propriedade.

A partir deste pensamento poderemos descobrir o que realmente é nossa propriedade.

O que te pertence?



sábado, 12 de março de 2016

CARNAVAL

De fora do frege que rola na pista, assisto alguns momentos nos noticiários da TV. Como não achar bonito as escolas na avenida. Temas envolventes, históricos ou de homenagens, recheados com extremo luxo.

Os trabalhos para preparar uma escola, que chega a ter quatro mil participantes, não são para qualquer um. Tem que ter uma equipe fantástica, coordenada, azeitada e trabalhando. Carnaval tem data e hora.

Antes de tudo é necessário um samba enredo.

Quantos sonhos escondidos do que se vê na telinha ou ao vivo. Quantas esperanças. E a escola vai aparecendo com a apresentação da comissão de frente que inicia tudo. Logo a seguir as alas, cada uma com suas fantasias e coreografias próprias. Mestre-sala e porta-bandeira aparecem com o estandarte da escola. Ala das crianças, dos compositores. Rainha da bateria e a bateria. Ala dos passistas e das baianas. Velha guarda fecha o desfile com toda sua representatividade. No meio de tudo os carros alegóricos, alguns deles verdadeiras obras de arte. Vemos tudo pronto e funcionando.

Fico matutando sobre o assunto e lembrando as minhas histórias no Carnaval:

“Ô Abre alas que eu quero passar!”

Meu lado carnavalesco, se não me falha a memória, parou nos meus quinze ou dezesseis anos. Minha lembrança mais forte era do cheiro dos lança-perfumes que enchia o salão. A Rhodia fabricava o lança-perfume rhodouro que nós jogávamos sobre as meninas cantando:

“Confete, pedacinho colorido de saudade,

Ai, ai, ai, ai...
Ao te ver na fantasia que usei,
Confete, confesso que chorei...”.

Naqueles dias existia o corso que saia às ruas com carros e grupos de pessoas cantando e dançando durante o dia na prévia para o baile noturno.

No final do baile de carnaval que não queríamos que acabasse, vinha sempre àquela música:


“Tanto riso, ó quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão...”.

E nós, sentados no chão do salão, cansados e felizes, marcando onde nos encontrarmos para começar tudo de novo no outro dia. Do meu lado, suada como eu, a minha colombina daquela noite: Diana.

Em 1961 o então Presidente do Brasil, Jânio Quadros, proibiu o uso do lança-perfume e a sua comercialização. Embora a proibição fosse pelo uso indevido, ela trouxe também o fim de uma era.

O Carnaval brasileiro é a maior festa a céu aberto do Planeta. Fácil observar que tudo é superlativo.

É a aventura popular que mais resvala na luxúria explícita.


sexta-feira, 11 de março de 2016

APOLOGIA DESAPLICADA

Nada, nada muda por aqui.
O Bar do Mineiro está como sempre foi:
Discreto, simples, confortável, aconchegante.
Quase particular.
Marcas nas suas paredes,
O tempo não deixa que não há espaço.
O espaço de tempo deste bar é caro.
Nos mesmos bancos as mesmas pessoas,
Clientes remidos,
Estabelecem-se fraternalmente.


Parte deste quadro nos sentamos a tagarelar
Com a importância que o fato merece.
Intercalando, vamos umidecendo as palavras que,
Úmidas, fluem melhor.

Mansamente as horas vão passando,
Gente vai passando...
Quem sabe, a crise não passa agora
Por esta velha calçada de ladrilhos e,
Todos nós,
Pulamos sobre esta infeliz.
Para não mata-la, nós a embebedaríamos.
Ébria, a crise entraria em crise e se acabaria.
Seríamos por consequência manchete:
“ÁLCOOL DE RIBEIRÃO PRETO ACABA COM A CRISE NO PAÍS.”


Temos que lutar pela não restauração deste trecho.
Restaurem o Pedro II,
A Matriz,
O que quiserem, mas preserve intacto este pedaço,
Indefinidamente, nas Segundas Feiras.
Somos aqui, acadêmicos sem fardão e,
Principalmente,
Mas muito principalmente,
Não tomamos chá.


quinta-feira, 10 de março de 2016

A VIAGEM

Acredito que todos nós já nos preparamos para aquela viagem de férias. Sonho de um ano inteiro. Projetos e conversas sem fim para determinar aonde iremos. Tudo depende de uma organização bem elaborada para não acontecerem furos indesejáveis. Prepara-se um checklist detalhado. É todo um ritual com pouquíssimas variações entre qualquer um de nós. Verifica-se o custo de tudo para elaborar o orçamento e acomodar dentro das possibilidades do momento. Temos que deixar uma folga porque é de praxe, vamos estourar os cálculos feitos. Reserva na Pousada. Coisas assim!

Ah! As férias.

No final daquele ano, um mês antes das sonhadas férias, a filha mais nova teve um problema de saúde muito sério. Foi necessária uma internação de urgência. Toda a família estava em estado de alerta para as informações médicas.

Diagnósticos não eram os melhores... Seria necessária uma operação imediata para a confirmação. Neste momento o tempo congela, esta é a nossa sensação. Precisamos de uma resposta e o tempo não anda.

Orações e choros eram o que rodeava aquela família desorientada.

Fizeram uma viagem para dentro de si mesmos. Percorreram caminhos que eram desconhecidos, sinuosos e duvidosos.

Não foram a Pousada reservada, foram ao coração dos filhos e eles estiveram nos seus. Não conseguiram tomar aquela cerveja gelada, beberam um pouco das incertezas da vida no sabor da lágrima mais salgada que a água do mar. Não queimaram a pele ao sol que se intensifica nas praias, aqueceram os seus corações no calor familiar. O caminho estava cheio de problemas. Foi uma viagem longa e dolorida até a chegada do médico:

- Foi tudo bem, a Clarinha vai se recuperar!

A volta foi a melhor de todas. Todos estavam bem!


quarta-feira, 9 de março de 2016

DESEJOS

Gostaria de ser a resposta
nunca a pergunta;
e ser a música,
não o instrumento;
não ser a dor,
somente unguento;
queria ser o riso,
não o palhaço;
a benção,
jamais a morte;
mais a alegria
que a sorte.
Gostaria, pois, de alterar
substancialmente
algumas coisas em minha vida.
E,
pelo exposto e assentado
jamais teria nascido.
Vagaria incógnito pelas estrelas
até ser gerado no ventre da Lua.
Então, mamaria ansioso
nas grandes tetas da Via Láctea
e sorriria da pequenez do mundo.




terça-feira, 8 de março de 2016

A ARCA DE NOÉ

- Osvaldo, cadê o Noé?

- Tá lá no quintal!

- Fazendo o quê?

- Ué mãe, o de sempre: barquinhos.

- Esse menino tem lição pra fazer, vá buscá-lo!

Assim foi a infância de Noé. Não, não é o Noé que você está pensando. Este, de quem falo, morava em Niterói e, quando adulto, tornou-se capitão da balsa Rio-Niterói. Sonho de infância realizado.

O que me remete ao Noé legendário, histórico: o da Bíblia.

Assisti, recentemente, a um filme com uma versão atualizada sobre o Noé onde ele era um deputado. Em certo trecho do filme, a esposa do Noé deputado, que resolveu abandoná-lo junto com os três filhos devido aos constrangimentos por que estavam passando, tomava um lanche quando apareceu o garçom que era caracterizado por Morgan Freeman, este ator espetacular. O detalhe era que Morgan Freeman estava fazendo o papel de Deus na história. Em certo momento do filme Deus comenta com a esposa:

- Quando você pede paciência a Deus, ele não te dá paciência e sim, a oportunidade de ser paciente.

Esta pequena frase mostra claramente que nós temos a permissão Divina para agirmos. Deus nos dá a autonomia para resolvermos. Veja como somos importantes!

Livre arbítrio: assim se resume esta nossa condição de escolher o caminho que queremos seguir.

Foi oferecida a Noé, o bíblico, esta condição. Construir ou não a arca. Noé, em um ato de Amor, optou por construir e foi salvo.

Vai acontecer, com muitos de nós, dizermos em algum momento:

- Deus não me ajudou!

É quando deveríamos nos recordar da pergunta: “Você optou por construir a arca?”.



segunda-feira, 7 de março de 2016

A MESA ESTAVA POSTA

- Querido, corre ali no mercadinho e traga um refrigerante grande que estou passando bifes para os meninos. Daqui a pouco vão chegar esfaimados.

- Oba!

- Eu disse para os meninos!

- Oba!

- Que parte de “para os meninos” você não entendeu?

- A parte do bife que eu também sou menino.

Os dois riram da brincadeira.

Celso e Dirce passavam por um período difícil da vida. Ele havia perdido o emprego fazia já algum tempo e, tudo em casa estava bastante controlado. Celso conseguira uma colocação provisória que estava permitindo uma “festa” neste dia. Dirce havia encomendado quatro bifes, especialmente, para aquele dia. Era um dia qualquer, mas ela queria dar aos dois filhos uma refeição mais saborosa. Os meninos chegaram correndo como só meninos fazem. Detalhe: os dois filhos chegaram com dois amigos.

- Mãe, os meus amigos podem almoçar aqui?

Dirce conhecia as crianças, que vez por outra vinham brincar com seus filhos, e sabia que estavam em situação bem pior que a deles. Não pensou duas vezes:

- Claro que sim! Meninos, todos para o banheiro lavar as mãos.

Celso chegou com a pet e Dirce explicou a ele o que ocorria.

- Sem problema querida!

As crianças sentaram-se e Dirce as serviu um bife para cada um. Reservou aquele caldinho com cebola para ela e o marido. Os meninos terminaram o almoço e saíram para o quintal. Dirce comentou com carinho:

- Eu não disse que era para os “meninos”, parece até sexto sentido.

- As coisas estão melhorando querida, logo teremos um repeteco.

Celso pensou: “Nunca um bife que não comi me fez tanto bem!”.

Quando a caridade, a compreensão e o Amor são os temperos da vida.


domingo, 6 de março de 2016

SENSAÇÕES

Penetra pelos meus ouvidos esta música
E vai me invadindo, a princípio lentamente.
Suave, doce, e ao mesmo tempo simbolista.
Oh! Música, doce música confidente.

Bendito seja o seu autor, desconhecido,
Sim, notei que sua alma é irmã da minha, pois
Dói nos acordes minha dor em sustenido
Co’a mesma intensidade e a dor de quem compôs.

Vagueio pelo éter. Agora estou no ar,
De repente me precipito em pleno mar.
Fantástica sensação. Viva a liberdade!

Bendito seja o seu autor desconhecido
Que se perdeu da vida e não ficou perdido,
Construindo aqui na Terra a sua eternidade.



sábado, 5 de março de 2016

NAQUELE DIA


Naquele dia, especialmente naquele dia pretendia ficar em casa. Era um Domingo, o tempo estava agradável, até um pouco frio. Tinha trabalhado bastante nos últimos dias e precisava de um momento retirado e quieto. Totalmente offline. Acredito que todos nós chegamos neste dia necessário de recuperação de forças.
Estava decidido! Vou procurar algum bom filme ou um destes sites com clipes de música ao vivo. Escrever... Nem pensar! Preciso deste repouso mental. Assim, deixei a garrafa de café próxima e me acomodei para o merecido momento. Vez por outra, fugiria para fumar um cigarro na varanda.

Sim eu sei, não deveria fumar! Vou me repetir, já tentei do químico ao Divino então, não tem solução.

Liguei a TV e comecei a minha busca por algo para passar as horas e me entreter. Estava no meio desta atividade quando o telefone tocou. Atendi:
- Alô!
- Pai?
- Oi filho! Como vai?
- Tudo bem, tem café por aí?
- Tem sim!
- Estou aqui com um pão de queijo pedindo para ser repartido com vocês. Estou chegando!
- Que bom, venham que estaremos esperando!

Meu filho chegou com a minha norinha e meu neto. Acabaram passando todo o dia. Foi divertido e gratificante.

Quando eles se foram no final do dia, fiquei me perguntando o que é que estava desejando tanto pela manhã?

Estava cansado, mas feliz. Parei para pensar que, algumas vezes, o inesperado pode nos deixar mais feliz do que o descanso que não tivemos.


Como é bom perceber que a nossa certeza é totalmente falha.


sexta-feira, 4 de março de 2016

A PRIMEIRA ESCOLA


Quando eu era menino, o terreiro era cheio de frangos e galinhas. Nos finais de semana matávamos um no Sábado e um no Domingo. Nunca entendi isto, porque a gente brincando quase atropelava com a quantidade existente.

Porque um só?

Minha mãe preparava e dividia os pedaços entre meu pai e nós, os filhos, com parcimônia. Era incompreensível a limitação. Porque tantos animais no terreiro e apenas um frango à mesa?

Isto foi durante toda a minha infância e meu questionamento a respeito me incomodava.

Meu pai, um homem bom e caladão, dedicava-se ao trabalho diário de cuidar de um pequeno sítio onde tínhamos quase tudo: horta, pomar, porcos e galinhas, algumas vacas produzindo leite e uma pequena lavoura de onde colhíamos milho, feijão, mandioca. Ele saia de manhã, dava algumas ordens a mim e aos meus irmãos e ia para o campo. Normalmente orientando para um serviço específico. Pedro cuida das galinhas jogue o milho e recolhe os ovos; Jaime dê o trato aos porcos e troque a água dos cochos; Osvaldinho cuida da horta: molhe e colha verduras para o almoço; Zezinho vá atrás do bambuzal e veja se tem aboboras no ponto e colha. Nesta altura meu pai já havia tirado leite das vacas e colocado nos latões que o caminhão passava cedo coletando para levar ao laticínio. Todos os dias meu pai trocava o serviço que fazíamos para que aprendêssemos toda a lida do sítio.

O ônibus da escola passava às sete e meia. Tudo tinha que estar pronto a tempo.

Levantávamos por volta das cinco horas. Minha mãe já estava com o fogão queimando lenha e a chaleira com água para o café esperava pelo fogo. Assim que passava o café chamava um de nós:

- Vamos levar um café ao pai?

Íamos para o estábulo e mamãe sempre dizia:

- Osvaldo olha o café!

Meu pai dizia:

- Agora sim!

Aquele gesto representava uma das formas de afeto e carinho que havia entre eles. Muito contido, mas definitivamente verdadeiro. Meu pai voltava ao serviço e mamãe arrematava:

- Osvaldo, assim que terminar, sobe lá pra casa que o café vai estar na mesa.

Quando tinha os meus quinze anos arrisquei perguntar a minha mãe o porquê do meu questionamento (Apenas um frango ou galinha à mesa). Minha mãe era simples, mas sua sabedoria profunda. Olhou em meus olhos e disse:

- Meu filho, seu pai e eu começamos sem nada. Sem nada mesmo! Tínhamos conseguido este pedaço de terra e nos prometemos tirar desta terra o necessário para nós e os filhos que viessem. Trabalhamos duro meu filho e, com o tempo, vocês foram chegando e trazendo alegria para nossa casa. Seu pai e eu queríamos que vocês estudassem para terem mais oportunidade na vida. Assim foi que juntamos nossas forças e o Amor que tínhamos um pelo outro e o amor de nós dois por esta terra e trabalhamos. Aprendemos a poupar para termos o suficiente para oferecer a vocês uma vida melhor. Não acredito que uma galinha a mais teria feito diferença na sua alimentação ou na de seus irmãos, pois graças a Deus, foi sempre farturenta. Com esta nossa atitude esperamos ter passados a vocês que o desperdício não é bom. Muitos frangos e galinhas que não comemos serviram para vestir vocês e cuidar do essencial.

Minha mãe levantou-se e, ao passar ao meu lado, acariciou meus cabelos.

No Sábado seguinte, fomos à cidade com meu pai para entregar frangos, ovos e duas leitoas. Quando chegamos minha mãe mandou que lavássemos as mãos para o almoço. Assim que nos sentamos, havia sobre a mesa dois frangos assados. Ninguém fez nenhum comentário porque quando mamãe nos servia era o melhor dela para nós. Olhei para ela e meus olhos encheram-se de lágrimas. Mamãe percebeu e, levantando-se me chamou:

- Jaime, me ajuda a tirar uma bacia ali fora que esqueci no sol?

Levantei-me e a acompanhei. Chegando lá fora mamãe pegou seu avental e enxugou meus olhos. Deu-me um abraço apertado e disse:

- Está tudo bem meu filho, está tudo bem! Vamos almoçar?

A partir daquele dia, vez por outra, mamãe fazia dois frangos.


quinta-feira, 3 de março de 2016

PRIVILÉGIO

Ouvi a caixa-d'água

altas horas da noite

bebendo água. Aos goles.

E o vento pedindo silêncio

entre as frestas e gelosias.

Shssssssssssssssssst!

Quando tudo se aquietou,

saíram ninfas e faunos

dos livros da estante,

dançaram e brincaram.

O amor tomou conta de tudo,

o ar encheu-se de perfumes

e a claridade emanava de uns vaga-lumes

enquanto eu olhava atento e mudo.



quarta-feira, 2 de março de 2016

FIQUE LIGADO!

É fácil escutar por aí:

- Estou desligado de tudo!

Isto não é bom em todos os sentidos. Ligue-se! No 110 ou no 220, veja qual o seu perfil e conecte-se.

- Quando foi que o desânimo tomou conta de mim?

Tanta gente se pergunta e quer encontrar respostas. Nunca antes neste País se procurou tanto a ajuda emocional. Psiquiatras e Psicólogos estão em alta.

As religiões que trabalham com o dinheiro também. Tem ofertas de promoção Divina a preços módicos. Estão vendendo tijolos abençoados por apenas R$500,00. É o Deus oleiro nosso de cada dia. Deus não sabe, mas a coisa (Tijolo, vassoura santa) está vendendo adoidado por aqui. É a sobra das construções suntuosas feitas por estes “pastores” humildes. Não desanime meu amigo, busque a sua salvação no carnê mensal. Tem empresa, digo igreja, colocando ações no mercado da bolsa de valores. Não tem? Então vai ter! É o Deus empreendedor. Está tudo no livro! Bem, pelo menos as justificativas serão encontradas. Torce daqui, torce dali e tudo se arranja. Justificado em cartório.

Tudo em nome de quem:
- Em nome de Jesus! – gritam em coro.

Milagre, aleluia!

Cada um é cada um!

Fique ligado!

Quando sou franco, dizem que sou grosseiro. Quando o outro é franco, é apenas franco. Por quê? Porque sim!

Fique ligado meu amigo!

Vamos usufruir com ternura das hashtags:

#serfeliz
#terrazão

terça-feira, 1 de março de 2016

LIVRARIA

Ele estava sempre em busca de um novo livro. Leitor voraz e apaixonado. Entendia que a vida não valia a pena sem a leitura. Aquela livraria em especial era o seu esconderijo algumas vezes na semana. Ficava dentro de um shopping enorme e, além da possibilidade de alguma leitura no local, tinha um café que sempre, mas sempre era delicioso. Era tomado como se fosse um aperitivo para a refeição que viria a seguir: a leitura. De certa forma tinha interesse por romances intensos, cheios de intrigas e mistérios embora, fosse possível encontrar em sua biblioteca alguns poetas renomados, mas não, a poesia não era a sua preferência.

A assiduidade ao local colocou Osório, este era seu nome, como cliente destacado. Da mesma forma, ele conhecia por nome todos os atendentes da loja: Marisa, Jonas, Renata e Alfredo, o gerente. Assim que chegava, algum deles o recepcionava:

- Senhor Osório, bom dia, como vai?

- Bom dia Renata, graças a Deus tudo em ordem. E por aqui, muito trabalho?

- Hoje está mais tranquilo. Fique a vontade e se puder ajudá-lo, me chame.

De certo tempo até aqui, uma senhora, se tornara assídua no local. Ela tinha algumas mechas grisalhas no cabelo que realçavam toda sua beleza. Era uma mulher especialmente bonita. Elegante e fina. Quem saberia a idade de uma mulher linda como aquela. Pensando bem, o que importa a idade.

Osório estava viúvo há mais de dez anos e seu luto estava sendo esquecido nestas leituras. Já tivera a oportunidade de trocar olhares casuais com ela e conferir suas preferências nos livros que folheava. Tinha bom gosto na leitura. Certo dia, num destes dias que acontecem na vida de todos nós, Osório lia uma revista de atualidades enquanto tomava seu café e ouviu que algo caíra ao chão. Seus olhos se desviaram da leitura para a prateleira próxima de onde um livro pesado, havia escorregado entre as mãos daquela mulher. Levantou-se rapidamente para pegá-lo, no mesmo instante em que ela fazia o movimento para abaixar-se. Chocaram-se.

- Desculpe-me! – disse ela

- Machucou-se? – retrucou preocupado.

- Não! Está tudo bem obrigada.

- Minha intenção era apenas ajudar, me perdoe.

Ele pegou o livro do chão e entregou em suas mãos. Novamente seus olhos se cruzaram. Neste momento, muito mais interessados um no outro.

- Gostaria de apagar este momento oferecendo um café a você... – esperou por uma informação.

- Leila! – disse ela

- Então Leila, meu nome é...

- Osório, – ela se antecipou – escuto os atendentes daqui falarem sempre seu nome.

Ele esticou o braço para cumprimentá-la e encontrou sua mão que já vinha em sua direção. Osório sentiu a suavidade daquele contato e apertou sua mão com ternura. Docemente a puxou para a mesa onde estava e disse:

- Só um instante, vou buscar nosso café. Como você gosta?

- Puro, com açúcar! –disse ela com discreto frenesi na voz.

- Já volto! Não fuja!

Ela sorriu...