sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

OFERENDA

Para Mário Quintana

Mais doce que o cantar do grilo
só mesmo o seu cantar.
Onde estava
que não ouvia os grilos?
Percebi, vagamente, os vagalumes
clareando a noite, mas...
grilos, não ouvi.
Perdi-me no universo
em aventuras
e até...acredite!
Nasci do ventre bojudo da Lua.
Na vastidão do Universo
inteiro
pobre de mim! Grilos não vi!
Vi, algumas vezes, os anjos e querubins,
que ficam nos átrios imensos das igrejas.
Tão sós,coitados!
E vi, cansado de amanhecer
o dia nascendo...
Vermelho de dor.
Mas...grilos não vi!
Mais doce que o cantar do grilo
só mesmo o seu cantar, Quintana.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

E EU TESO

- Te quero
Repondes:
- Não posso!
Pergunto:
- Porquê?
Se quero
apenas
você.
- É tarde
e em casa
me esperam.

Me iludo
pensando
que voltes.
Se voltas
não sei.
Quem sabe?!

E a roda
girando
circula.
É a vida
perdida
medida
sem pêso

E eu teso.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

ALUCINAÇÃO

Mistério no silêncio místico,
na última hora do morto
quando rezamos contritos.
...Se ele mexer os pés, já pensou?
Vai ser uma correria!...
E os círios ardendo, queimando sua alma
que se demorara em sair.
...Diabos! Esse cara não se toca,
fuça o nariz na frente da viúva!...
Que estais no céu,
santificado seja o Vosso nome
venha a nós o Vosso reino...
...Grande amigo, tanta gente ruim
e quem vai, podia ficar....
Um vento frio se faz presente.
Entraram quatro almas piedosas
e levaram a sua alma chamuscada.
...Será que ninguém percebeu?...
Rogai por nós que recorremos a Vós!
Aquele corpo vazio, matéria,
fotográfico...
...E quatro almas levando sua alma
se distanciavam.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

CIRCUNSTANCIAL

Há um barulho de riacho ao longe
sobressaindo-se ao sol
que se acomoda enorme no horizonte.
E a Lua, apressadinha,
vem fazendo fru-fru no tecido azul do céu;
enquanto vovó,
coitadinha,
dorme.


sábado, 26 de novembro de 2016

QUEM ME ASSUSTA?

Evito encontrar-me um dia
comigo mesmo, sozinho,
cara a cara, de repente.
Pelo menos, não tão cedo,
cedo assim, não! Eu não quero
encontrar-me tal como fui.
Penso até que neste dia,
será meu dia derradeiro.
Quatro círios estarão
acesos à minha volta.
Serei, assim, incognoscível
para os amigos e irmãos,
e muito mais para estranhos
que perguntarão baixinho:
"Quem era este homem?" E alguém
dirá: "Sei lá, não sei não!"
Naquele momento fúnebre
um padre estará dizendo
o necrológio final:
"Ele se foi desta terra,
sem nunca ter conseguido
consigo mesmo encontrar,
mas vai se encontrar com Deus
que nunca o atemorizou".


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ANTÍTESE

Efêmera como este momento,
chuva efêmera!
Pranto que encharca a terra
e que lhe dá vida.
Enquanto tudo o mais acontece
no interior da terra,
onde frio e solidão
acomodarão meu corpo,
explode a vida na semente.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

PROVA

Ah! Como vibra meu coração!
Veja como bate!
Sinta como estou quente.
Escute neste silêncio
o barulho do meu sangue
a percorrer meu corpo,
e como é veloz!
Meu sangue que corre assim,
corre mais por você
do que correria por mim.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

DO DIA QUE ESTÁ ESCURECENDO

Acontece que tudo acaba.
Ao acabar transcende
e o que era medo, desconhecido,
se aclara.
Se compreende.

É a tragédia do acontecido.
Somos todos
vítimas de um destino só,
viemos de uma terra poeirenta,
para de novo nos tornarmos pó.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ESTRANHAS MÁGOAS

Preciso encontrar
pra tanto procuro
um porto seguro
no revolto mar.

E corre festeiro
o sangue mais forte
quando para o Norte
o brigue ligeiro

vai cortando as águas.
E sofro calado
sempre distanciado,
repleto de mágoas...

..que o porto que quero
...que o Norte esperado
é um peito magoado
igualzinho ao meu.


domingo, 20 de novembro de 2016

VOU FESTEJAR O NATAL

Subirei nesta árvore de Natal
como se fosse um duende.
Vou me olhar nestas bolas coloridas
e,
( Vejam, como estou barrigudo! )
balançarei nas fitas
deste pequeno pinheiro.
Então, ficarei extasiado
com o pisca-pisca multicor.
Nesta altura, estarei alegre
de champanhe.
Cairei dos galhos do pinheiro
em cima da mesa cheia de cartões.
Ficarei sem assistir à Missa do Galo,
desacordado a enfeitar esta mesa
e as crianças dirão:
- Veja, mamãe, um anãozinho
de barba branca dormindo!