domingo, 21 de maio de 2017

ANÚNCIO DE JORNAL (2)

Pede-se a quem encontrou
documentos de fulano
que os guarde bem escondidos
que fulano não os quer.

Fulano, quer ser sicrano.
Incógnito. De uma vez!
Sem foto nem documento
sem impressão digital.

E a quem os encontrou pede:
guarde-os, assim como guarda
a lembrança de alguém morto,
que será gratificado.

Mas que jamais o procurem
que fulano não os quer.

Procurem outro qualquer.


sábado, 20 de maio de 2017

DAS ARTES (2)

Para meu gosto,

As penas dos anjos

Que ficam nas catedrais

- frias e silenciosas -

Arrancaria para enfeitar-te.

Daria, então, vida

A estas penas mortas.

E os anjos, dentro das catedrais,

Sorririam da minha arte

Na arte morta dos murais.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

O QUE TE PERTENCE (2)

- Isto é meu!

Definitivamente, quase nada nos pertence. O objeto, o imóvel, o carro ficarão quando partimos desta para melhor. Serão sim, objetos de disputas e brigas na grande maioria das vezes. O que pode parecer um bem de valor nunca será seu. É assim provisório, temporal.

Somos na realidade prisioneiros daquilo que possuímos porque não entendemos, de fato, o valor das coisas neste Universo. A maior parte das pessoas é escrava do que têm. Estranho notar que para ter, temos que nos submeter ao “objeto”. Que laço triste e melancólico se cria na propriedade de um bem.

A liberdade de possuir pertence àquele que ultrapassou a barreira do material. O possuir sem comparar e sem disputas está enquanto o que temos, tem seu uso no valor específico da utilidade.

- Esta é minha casa!

Não tem que ser a melhor. Tem que ser usada da melhor maneira. Temos que ser felizes em nossas casas. Isto é possuir.

Na verdade o que nos pertence está localizado em nossa caixa craniana. É o que somos e como agimos. É comum usarmos o coração para acomodarmos determinados sentimentos. De forma bastante objetiva sabemos que está tudo partindo do cérebro. O que sem dúvida nos pertence é o que usamos a partir do nosso entendimento para nós mesmos e para os outros. Fazer a felicidade do outro é propriedade nossa e irá conosco quando partirmos deste mundo. É simples e complicado, mas não difícil de entender. A pessoa a quem você fazia feliz não terá mais a felicidade que você distribuía porque era sua a propriedade de torná-la feliz. Isto é propriedade.

A partir deste pensamento poderemos descobrir o que realmente é nossa propriedade.

O que te pertence?


quarta-feira, 17 de maio de 2017

CARNAVAL (2)

De fora do frege que rola na pista, assisto alguns momentos nos noticiários da TV. Como não achar bonito as escolas na avenida. Temas envolventes, históricos ou de homenagens, recheados com extremo luxo.

Os trabalhos para preparar uma escola, que chega a ter quatro mil participantes, não são para qualquer um. Tem que ter uma equipe fantástica, coordenada, azeitada e trabalhando. Carnaval tem data e hora.

Antes de tudo é necessário um samba enredo.

Quantos sonhos escondidos do que se vê na telinha ou ao vivo. Quantas esperanças. E a escola vai aparecendo com a apresentação da comissão de frente que inicia tudo. Logo a seguir as alas, cada uma com suas fantasias e coreografias próprias. Mestre-sala e porta-bandeira aparecem com o estandarte da escola. Ala das crianças, dos compositores. Rainha da bateria e a bateria. Ala dos passistas e das baianas. Velha guarda fecha o desfile com toda sua representatividade. No meio de tudo os carros alegóricos, alguns deles verdadeiras obras de arte. Vemos tudo pronto e funcionando.

Fico matutando sobre o assunto e lembrando as minhas histórias no Carnaval:

“Ô Abre alas que eu quero passar!”

Meu lado carnavalesco, se não me falha a memória, parou nos meus quinze ou dezesseis anos. Minha lembrança mais forte era do cheiro dos lança-perfumes que enchia o salão. A Rhodia fabricava o lança-perfume rhodouro que nós jogávamos sobre as meninas cantando:

“Confete, pedacinho colorido de saudade,

Ai, ai, ai, ai...
Ao te ver na fantasia que usei,
Confete, confesso que chorei...”.

Naqueles dias existia o corso que saia às ruas com carros e grupos de pessoas cantando e dançando durante o dia na prévia para o baile noturno.

No final do baile de carnaval que não queríamos que acabasse, vinha sempre àquela música:


“Tanto riso, ó quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão...”.

E nós, sentados no chão do salão, cansados e felizes, marcando onde nos encontrarmos para começar tudo de novo no outro dia. Do meu lado, suada como eu, a minha colombina daquela noite: Diana.

Em 1961 o então Presidente do Brasil, Jânio Quadros, proibiu o uso do lança-perfume e a sua comercialização. Embora a proibição fosse pelo uso indevido, ela trouxe também o fim de uma era.

O Carnaval brasileiro é a maior festa a céu aberto do Planeta. Fácil observar que tudo é superlativo.

É a aventura popular que mais resvala na luxúria explícita.


terça-feira, 16 de maio de 2017

APOLOGIA DESAPLICADA (2)

Nada, nada muda por aqui.
O Bar do Mineiro está como sempre foi:
Discreto, simples, confortável, aconchegante.
Quase particular.
Marcas nas suas paredes,
O tempo não deixa que não há espaço.
O espaço de tempo deste bar é caro.
Nos mesmos bancos as mesmas pessoas,
Clientes remidos,
Estabelecem-se fraternalmente.

Parte deste quadro nos sentamos a tagarelar
Com a importância que o fato merece.
Intercalando, vamos umidecendo as palavras que,
Úmidas, fluem melhor.

Mansamente as horas vão passando,
Gente vai passando...
Quem sabe, a crise não passa agora
Por esta velha calçada de ladrilhos e,
Todos nós,
Pulamos sobre esta infeliz.
Para não mata-la, nós a embebedaríamos.
Ébria, a crise entraria em crise e se acabaria.
Seríamos por consequência manchete:
“ÁLCOOL DE RIBEIRÃO PRETO ACABA COM A CRISE NO PAÍS.”

Temos que lutar pela não restauração deste trecho.
Restaurem o Pedro II,
A Matriz,
O que quiserem, mas preserve intacto este pedaço,
Indefinidamente, nas Segundas Feiras.
Somos aqui, acadêmicos sem fardão e,
Principalmente,
Mas muito principalmente,
Não tomamos chá.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

A VIAGEM (2)

Acredito que todos nós já nos preparamos para aquela viagem de férias. Sonho de um ano inteiro. Projetos e conversas sem fim para determinar aonde iremos. Tudo depende de uma organização bem elaborada para não acontecerem furos indesejáveis. Prepara-se um checklist detalhado. É todo um ritual com pouquíssimas variações entre qualquer um de nós. Verifica-se o custo de tudo para elaborar o orçamento e acomodar dentro das possibilidades do momento. Temos que deixar uma folga porque é de praxe, vamos estourar os cálculos feitos. Reserva na Pousada. Coisas assim!

Ah! As férias.

No final daquele ano, um mês antes das sonhadas férias, a filha mais nova teve um problema de saúde muito sério. Foi necessária uma internação de urgência. Toda a família estava em estado de alerta para as informações médicas.

Diagnósticos não eram os melhores... Seria necessária uma operação imediata para a confirmação. Neste momento o tempo congela, esta é a nossa sensação. Precisamos de uma resposta e o tempo não anda.

Orações e choros eram o que rodeava aquela família desorientada.

Fizeram uma viagem para dentro de si mesmos. Percorreram caminhos que eram desconhecidos, sinuosos e duvidosos.

Não foram a Pousada reservada, foram ao coração dos filhos e eles estiveram nos seus. Não conseguiram tomar aquela cerveja gelada, beberam um pouco das incertezas da vida no sabor da lágrima mais salgada que a água do mar. Não queimaram a pele ao sol que se intensifica nas praias, aqueceram os seus corações no calor familiar. O caminho estava cheio de problemas. Foi uma viagem longa e dolorida até a chegada do médico:

- Foi tudo bem, a Clarinha vai se recuperar!

A volta foi a melhor de todas. Todos estavam bem!


domingo, 14 de maio de 2017

DESEJOS (2)

Gostaria de ser a resposta
nunca a pergunta;
e ser a música,
não o instrumento;
não ser a dor,
somente unguento;
queria ser o riso,
não o palhaço;
a benção,
jamais a morte;
mais a alegria
que a sorte.
Gostaria, pois, de alterar
substancialmente
algumas coisas em minha vida.
E,
pelo exposto e assentado
jamais teria nascido.
Vagaria incógnito pelas estrelas
até ser gerado no ventre da Lua.
Então, mamaria ansioso
nas grandes tetas da Via Láctea
e sorriria da pequenez do mundo.


sábado, 13 de maio de 2017

A ARCA DE NOÉ (2)

- Osvaldo, cadê o Noé?

- Tá lá no quintal!

- Fazendo o quê?

- Ué mãe, o de sempre: barquinhos.

- Esse menino tem lição pra fazer, vá buscá-lo!

Assim foi a infância de Noé. Não, não é o Noé que você está pensando. Este, de quem falo, morava em Niterói e, quando adulto, tornou-se capitão da balsa Rio-Niterói. Sonho de infância realizado.

O que me remete ao Noé legendário, histórico: o da Bíblia.

Assisti, recentemente, a um filme com uma versão atualizada sobre o Noé onde ele era um deputado. Em certo trecho do filme, a esposa do Noé deputado, que resolveu abandoná-lo junto com os três filhos devido aos constrangimentos por que estavam passando, tomava um lanche quando apareceu o garçom que era caracterizado por Morgan Freeman, este ator espetacular. O detalhe era que Morgan Freeman estava fazendo o papel de Deus na história. Em certo momento do filme Deus comenta com a esposa:

- Quando você pede paciência a Deus, ele não te dá paciência e sim, a oportunidade de ser paciente.

Esta pequena frase mostra claramente que nós temos a permissão Divina para agirmos. Deus nos dá a autonomia para resolvermos. Veja como somos importantes!

Livre arbítrio: assim se resume esta nossa condição de escolher o caminho que queremos seguir.

Foi oferecida a Noé, o bíblico, esta condição. Construir ou não a arca. Noé, em um ato de Amor, optou por construir e foi salvo.

Vai acontecer, com muitos de nós, dizermos em algum momento:

- Deus não me ajudou!

É quando deveríamos nos recordar da pergunta: “Você optou por construir a arca?”.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

A MESA ESTAVA POSTA (2)

- Querido, corre ali no mercadinho e traga um refrigerante grande que estou passando bifes para os meninos. Daqui a pouco vão chegar esfaimados.

- Oba!

- Eu disse para os meninos!

- Oba!

- Que parte de “para os meninos” você não entendeu?

- A parte do bife que eu também sou menino.

Os dois riram da brincadeira.

Celso e Dirce passavam por um período difícil da vida. Ele havia perdido o emprego fazia já algum tempo e, tudo em casa estava bastante controlado. Celso conseguira uma colocação provisória que estava permitindo uma “festa” neste dia. Dirce havia encomendado quatro bifes, especialmente, para aquele dia. Era um dia qualquer, mas ela queria dar aos dois filhos uma refeição mais saborosa. Os meninos chegaram correndo como só meninos fazem. Detalhe: os dois filhos chegaram com dois amigos.

- Mãe, os meus amigos podem almoçar aqui?

Dirce conhecia as crianças, que vez por outra vinham brincar com seus filhos, e sabia que estavam em situação bem pior que a deles. Não pensou duas vezes:

- Claro que sim! Meninos, todos para o banheiro lavar as mãos.

Celso chegou com a pet e Dirce explicou a ele o que ocorria.

- Sem problema querida!

As crianças sentaram-se e Dirce as serviu um bife para cada um. Reservou aquele caldinho com cebola para ela e o marido. Os meninos terminaram o almoço e saíram para o quintal. Dirce comentou com carinho:

- Eu não disse que era para os “meninos”, parece até sexto sentido.

- As coisas estão melhorando querida, logo teremos um repeteco.

Celso pensou: “Nunca um bife que não comi me fez tanto bem!”.

Quando a caridade, a compreensão e o Amor são os temperos da vida.



quinta-feira, 11 de maio de 2017

SENSAÇÕES (2)

Penetra pelos meus ouvidos esta música
E vai me invadindo, a princípio lentamente.
Suave, doce, e ao mesmo tempo simbolista.
Oh! Música, doce música confidente.

Bendito seja o seu autor, desconhecido,
Sim, notei que sua alma é irmã da minha, pois
Dói nos acordes minha dor em sustenido
Co’a mesma intensidade e a dor de quem compôs.

Vagueio pelo éter. Agora estou no ar,
De repente me precipito em pleno mar.
Fantástica sensação. Viva a liberdade!

Bendito seja o seu autor desconhecido
Que se perdeu da vida e não ficou perdido,
Construindo aqui na Terra a sua eternidade.