sexta-feira, 24 de março de 2017

ALGO SOBRE A DIDÁTICA (2)

Comecei ministrar cursos de bonsai em 1996. Uma das maneiras que encontrei para manter a atenção dos participantes durante meu curso foi, sempre, chamar aquela pessoa que percebia estar sonolenta ou desatenta para me ajudar. Não adianta, isto vai acontecer em qualquer curso, principalmente se forem muitas pessoas. Quando a quantidade de participante é pequena você consegue dar atenção um a um sem muito problema então, a minha atitude resultava em bom andamento para o meu trabalho. Era a boa solução, colocava o desatento mais próximo do que se fazia interagindo objetivamente no trabalho daquele momento.

Acredito que em muitas situações a solução está em procurar a saída mais adequada para cada caso. O estimulante do momento! Fazer com que um participante cansado ou desatento interaja ativamente, será uma boa solução.

Outra possibilidade que descobri é criar um suspense momentâneo. O participante estará ansioso pelo resultado. O suspense desperta!

Uma das maneiras que encontrei para mostrar o cuidado que se deve ter ao podar um galho foi com um pequeno truque.

Para os que não sabem, a poda é essencial na Arte Bonsai. É como conseguimos manter a nossa árvore no tamanho adequado por muitos anos. Esta poda é feita na parte aérea assim como nas raízes. Assim é que mantemos a estrutura do bonsai. Muito bem, como disse a poda é essencial. No momento em que vou falar sobre a poda aérea, ou seja, a poda de galhos, uso uma árvore ou pequena muda para a demonstração. Propositalmente, corto um galho que não deveria cortar e informo do meu erro aos alunos. Neste momento, é fácil ver algumas pessoas preocupadas com minha “falha”, até porque minha postura estará mostrando que “de fato errei”. Neste momento, aproveito para dizer da calma que devemos ter ao trabalhar a nossa árvore. Tranquilidade! Paciência!

Paciência, regra número um!

Seguramente erraremos menos. Chamo a atenção com bastante ênfase para o cuidado com a poda. Um erro poderá ser corrigido com o tempo, mas poderá levar muito tempo a correção de um erro destes ou, até mesmo, não ter solução. Agora vem o “truque”.

O galho que foi cortado está em minhas mãos. Já dei suficiente destaque para que evitemos este tipo de erro. Neste momento digo que: “Sim, às vezes pode haver solução!”. Coloco um pouco de saliva na ponta do meu dedo e passo na base do pequeno galho que está em minhas mãos. Repito o processo colocando um pouco de saliva na ponta cortada do galho na árvore. Todos estão olhando sem entender o que faço. Junto o galho que está em minhas mãos com a ponta do galho cortando fazendo com que fiquem alinhados da maneira que foram cortados. A atenção é visível. Neste momento, com uma das mãos, fico segurando as duas partes na posição original. Começo a reforçar a informação de que não devemos ter pressa ao cortar para não acontecer o que tínhamos acabado de ver. Um erro desnecessário.

Neste momento estou falando para todos, mas a atenção da maioria está em minhas mãos.

O quê esperam ver?

O quê acontecerá?

Continuo por três ou quatro minutos com informações as mais variadas e a atenção vai se concentrando em minhas mãos. No meio da fala coloco: “Pode ser que se consiga alguma solução diferente para este problema. Nunca temos muita segurança sobre isto”. De repente, solto o pequeno galho que cai...

É notável, todas às vezes um susto aparece aqui e ali. Acontece um momento mágico. Intimamente, algumas pessoas estavam esperando que o galho ficasse fixo em sua base, mas todos, todos estavam atentos ao que aconteceria.

Não, de fato, cortou errado não tem solução. Em contra partida ganhei meu público. Dali em diante tinha a atenção de toda a classe.

Podar, a partir daquele momento tinha regras claras, definidas.

Tenho comigo uma certeza: “Quando ensino, aprendo primeiro, pois meu ouvido é o que está mais próximo da minha boca. Então, ensinar é reaprender”.


quinta-feira, 23 de março de 2017

PRESENTE (2)

Ah! Vou entregar-te o mundo.

Sim, eu vou!

Escolhe o que quiseres,

Pois se sou o mais feliz dos homens,

Serás assim entre as mulheres.


E o mundo... O Universo todo

Eu lhe darei

Tão fácil é satisfazê-la.

Mas, como dar-te um astro, o Sol?

Se o Universo todo a quer como uma estrela!


Assim mesmo amor,

Pede que te atenderei.

Escolhe o que quiseres

Pois, se sou o mais feliz dos homens,

Serás assim entre as mulheres.


quarta-feira, 22 de março de 2017

*INTERJEIÇÃO (2)

A distância entre o entendimento correto e o que imaginamos a respeito de um fato, fica dependente na informação que recebemos. Salvo se formos personagens do assunto.

Um fato pode ser analisado por diversas mídias, com enfoques diferentes, permitindo a nós a análise e, quem sabe, por consequência, uma nova visão sobre o assunto. Sim, é bem por aí que a lógica anda. Sim, eu sei, tem assunto para várias laudas. Vou ficar no resumido!

Saí de casa para pagar algumas contas e fazer compras no supermercado. Na metade do caminho da minha primeira atividade que seria em um banco, o trânsito foi ficando lento, mais lento e parou. Na minha despreocupação com compromissos mais sérios, liguei o rádio e procurei por uma música agradável. Acabei na Rádio Usp que tem sempre uma variedade de músicas muito boas de ouvir. Aí sim, fui em busca do que causava a lentidão. Lá, bem à frente, podiam ser vistos caminhões encostados do lado esquerdo da pista, recolhendo galhadas das árvores que haviam sido podadas. Fui seguindo a fila no engata a primeira e desengata até o final daquele gargalo.

Ufa!

Foi um “Ufa!” sem estresse. Apenas um “Ufa!” normal de acontecimentos banais. Poderia haver neste “Ufa!” alguma raiva, mas não, era apenas um “Ufa!” despretensioso e de momento. Seguramente me faltou outra interjeição. Quem sabe: Oba!

Segui em frente, em busca da minha agência bancária quando... Outra vez o trânsito estava ficando lento, lento e... Parou!

Neste momento já estava com o rádio ligado e minha atenção se voltou para o que poderia ter acontecido. Parecia que este engarrafamento seria bem mais longo que o anterior. Procurei entender o que havia, verificando os sinais que ouvimos ou enxergamos nestas ocasiões como: pessoas ao lado do carro gesticulando, carros buzinando. Pude perceber que, a sete ou oito carros adiante, alguns motoristas conversavam sem gestos mais expressivos que os normais. Não havia buzinaços. No início deste texto está: “A distância entre o entendimento correto e o que imaginamos a respeito de um fato, fica dependente na informação que recebemos”. Meu lado detetive, após análise visual chegou a conclusão de acidente grave. Por quê? O fato de não ouvir buzinas em um engarrafamento muito grande aponta para situação “grave”. Em segundo lugar, a observação de pessoas conversando de forma normal mais a frente informava que estavam analisando com mais segurança, quem sabe com visão do acontecido, portanto não seria o caso de gesticulações de revolta ou raiva.

Muito lentamente, os carros começaram a se movimentar. Estava muito perto do ponto onde, de fato, um acidente bastante grave tinha acontecido. Nas conversas laterais, que acontecem com transeuntes informando os motoristas, pude ouvir: “O motoqueiro morreu!”.

Não sabemos quem era. Se casado ou solteiro. Teria filhos? E os pais... Que notícia!

As interjeições se seguem a cada carro que passa: “Nossa!”, “Puxa!”, “Credo!”, “Que pena!”, e assim vai...

Intimamente agradeço a Deus a espera nos congestionamentos. Agradeço não ter corrido. Agradeço não ter atropelado ninguém.

Com todas as situações acima me ocorre mais uma interjeição: “Graças a Deus!”


*Interjeição - é a palavra invariável que exprime emoções, sensações, estados de espírito, ou que procura agir sobre o interlocutor, levando-o a adotar certo comportamento sem que, para isso, seja necessário fazer uso de estruturas linguísticas mais elaboradas.


terça-feira, 21 de março de 2017

VOCÊ ESTÁ CONECTADO? (2)

Várias pessoas se aglomeravam em uma recepção de um prédio comercial. A empresa Connection Blue abrira vagas. Jorge, 55 anos, estava entre os candidatos.

- Bom dia!

- Pois não. O que deseja? – disse a recepcionista

- Vim para a entrevista da Connection Blue.

- Por favor, o senhor preencha este formulário.

- Você pode me arrumar uma caneta? – disse Jorge

- Vá até aquele balcão para preencher porque o movimento hoje está de amargar. – disse a recepcionista entregando a caneta – Assim que termine, é só me entregar. Faremos a chamada por nome.

Jorge dirigiu-se ao balcão, onde já estavam mais dois ou três candidatos. Desempregado há alguns meses, torcia para estar entre os selecionados. Era um homem honesto, formado em Administração de Empresas, com uma ficha profissional impecável, asseado e educado.

Terminou as anotações e entregou a recepcionista. Ao seu redor, a grande maioria era de jovens com faixa de idade entre vinte e, no máximo, trinta anos. Conseguiu um espaço em uma poltrona e sentou-se esperando a chamada. Passaram-se mais de trinta minutos quando ouviu:

- Jorge, Jorge Limeira!

Jorge levantou-se e dirigiu-se a recepcionista.

- Sou Jorge.

- Por favor, tome o elevador da direita até o vigésimo andar. Saindo, a sua direita, dirija-se a sala 404.

- Obrigado.

Jorge tomou o elevador e chegou à sala indicada.

- Bom dia!

- Bom dia! O senhor veio para a entrevista de emprego?

- Sim. – disse Jorge entregando a ficha que preenchera.

- Sente-se um instante que breve será chamado. – disse a atendente.

Minutos depois:

- Sr Jorge, por favor, o nosso Gerente de Recursos Humanos, Sr Jonatan, irá atendê-lo. – ela levantou-se e abriu a porta para a sala de entrevista – Boa sorte!

- Obrigado! – respondeu Jorge polidamente.

- Jorge, seja bem vindo a Connection Blue, meu nome é Jonatan e serei seu entrevistador.

Não devia ter mais de vinte e cinco anos, calculou Jorge. Muito bem vestido, cabelos esticados com algum tipo de gel. Enquanto falava, teclava um smartphone de última geração. Sem tirar os olhos do aparelho perguntou:

- Jorge, a Connection Blue é uma empresa, como o nome diz, super conectada e esperamos dos nossos colaboradores esta posição.

- Acredito que não terei problema em atender este quesito. – esclareceu Jorge.

- Quesito! – exclama Jonatan – o que é isto?

- Questão – respondeu Jorge.

- Ah! Interessante, – Jonatan tirou os olhos de seu Smartphone – apenas para constar Jorge, você certamente tem um Smartphone para contatos?

- Não, o meu é apenas um telefone comum.

- Mas como vou localizá-lo para atendimentos eventuais?

- Pelo telefone! – diz Jorge.

- Quero dizer que não terei acesso a sua localização geográfica neste seu telefone ultrapassado. – finaliza Jonatan.

- Eu direi onde me localizo. – responde Jorge.

- Vamos recomeçar. Parece que não começamos bem. Jorge você está conectado a rede?

- Que rede?

- A internet

- Estou sim, tenho um computador em casa.

- Ótimo! Tem Facebook?

- Não, não tenho!

- Como vou localizar o seu perfil?

- Enviei meu C.V. para a empresa nos primeiros contatos.

- Curriculum Vitae não mostra o seu perfil atual meu amigo agora, o Facebook é o seu perfil atualizado mais confiável. Você tem Twitter, Instagram, Google+, qualquer mídia do gênero?

- Não, não tenho!

- Você tem WhatsApp?

- Também não!

- Como vou encontrá-lo rapidamente Jorge?

- No meu endereço ou no meu telefone. – responde Jorge atrapalhado.

- Mas você teria que ter o WhatsApp, ele é mais prático que o telefone. Não temos que ficar esperando uma ligação que não sabemos se será completada. É mais direto. É mais moderno. É, finalmente, o que se usa hoje. – diz Jonatan já um pouco irritado.

- Penso que posso providenciar o necessário que a empresa me solicita. – diz Jorge buscando uma solução.

- Impossível! – Jonatan está incrédulo – A empresa não pode esperar que você se organize e esteja habilitado nestas mídias para breve. Precisamos de um elemento AGORA.

- Meu filho me disse algumas vezes para que eu comprasse um aparelho melhor.

- Porque não comprou Jorge? Porque não comprou?

- Não via a necessidade. – se explica Jorge.

- Deveria ter escutado seu filho! Infelizmente Jorge, você não atende as necessidades da Connection Blue. Embora me pareça um boa pessoa não está devidamente conectado para a empresa. Lamento!

Neste momento, Jonatan já está digitando alguma coisa em seu Smartphone. Estica a mão dizendo:

- Obrigado por atender ao nosso chamado. Tenha um bom dia.

Jorge se despede abatido:

- Bom dia!

Chegando em casa, sua esposa vai recebê-lo ansiosa por novidades:

- Querido como foi a sua entrevista?

- Nada bem!

- Como assim, nada bem! Seu curriculum é muito bom!

- Pode ser, mas acredito que eles nem leram minhas informações.

- Então porque não foi aceito?

- Porque não tinha um smartphone!


segunda-feira, 20 de março de 2017

BONSAI VI - Um presente da Lituânia (2)

A viagem a Vilnius, na Lituânia, em 2011, foi muito interessante por um fato bem específico. Eu tinha que comprar um presente para minha filha Andréa, era um compromisso que tinha feito comigo mesmo para recompensá-la da sua constante ajuda quando das montagens do meu evento em Ribeirão Preto. Sempre uma formiguinha diligente e carinhosa. Atenta e prestativa.

O fato é que ela havia me pedido para encontrar uma imagem de Nossa Senhora, uma santa com identidade específica da Lituânia. Afinal são muitas as denominações que a mãe de Jesus tem por todo o mundo. Na Lituânia, havia também esta: Nossa Senhora da Lituânia.

Minha cabeça não anda lá estas coisas no quesito recordações. Preciso ver se é possível encontrar uma placa de memória com alguns megabytes a mais para ir salvando minhas histórias.

Enfim, lá fomos! Ah! Sim, o plural é porque o Bergson estava nesta viagem também. Companheiro de muitas aventuras. Fomos recebidos por um “anjo” no aeroporto. Explico: na Lituânia, todos os demonstradores que chegavam eram recebidos por um rapaz ou uma moça que eram denominados “anjos”. Eles tinham a incumbência de nos transportar para o evento, do evento para o Hotel, para compras se quiséssemos enfim, uma novidade muito interessante. Eram estudantes que faziam este serviço de forma voluntária, apenas para ajudar. No local do evento, tínhamos outro “anjo”, era uma moça (Ou seja era muito mais “anjo” que o outro.) que nos avisava de um lanche, do almoço, o que fosse necessário para nosso conforto.

O tempo foi passando com nossas demonstrações e tantas atividades que quase passa despercebido a minha tarefa de encontrar o presente da Andréa. Falei com o Bergson e fomos ao centro de Vilnius que é uma cidade histórica. A mais antiga capital da Europa. Em suas ruas centrais, tem portões que dão para um local que, para nós, seria como uma vila. Cada um destes locais com características muito próprias. Pareciam pequenos feudos. Naquele momento, eram locais de visitação turística. Pois bem, andamos para cima e para baixo procurando esta Nossa Senhora e... nada! Disse ao Bergson:

- Não posso voltar sem esta santa Bergson!

- Vamos olhar as lojas com mais cuidado, tem algumas que ainda não abriram. – disse ele.

Lá fomos nós, andando pra lá e pra cá e eu, começando a ficar ansioso. Era um Sábado, me parece, e iríamos embora no Domingo ou na Segunda. Não sei, não vou me lembrar! A verdade é que tinha somente aquele dia para resolver este assunto. Perguntando em muitas lojas sobre esta Santa e nada!

Até que...

Chegamos a uma loja com artigos locais, muita elegante. Quando perguntada sobre a santa, a moça que nos atendeu disse:

- Tenho sim, só um instante! – saiu para buscar minha encomenda.

Fiquei muito alegre, não poderia ser diferente.

- Bergson, valeu a pena! – disse.

- Que bom Mário, a Andréa vai ficar feliz!

A moça havia mostrado uma peça entalhada de madeira com uns 60 cm de altura. Era realmente um trabalho primoroso. Ela segurava uma espada, em madeira também, com as duas mãos. Tudo muito detalhado com precisão de entalhes. Fiquei muito contente, realizado posso dizer. Paguei e fomos embora.

Quando estava preparando minha mala, Bergson, muito atencioso disse:

- Mário, esta espada é solta, vamos retirá-la e acomodar separadamente, pois pode quebrar.

Tudo arrumado, a Santa acomodada e embalada, voltamos ao Brasil.

Eu havia comprado pequenas lembranças para os filhos e netos. Reuni todos em casa onde fiz a entrega dos agrados que trouxera. Comentei sobre a viagem contando alguns “causos”. Andréa ficou muito feliz com a Nossa Senhora. Sem dúvida, era um trabalho artesanal de primeira embora, tivesse olhado com “certo ar indagador”.

Passados alguns dias, Andréa, que adora pesquisas, foi em busca da informação da escultura que lhe presenteei. Descobriu que na verdade era um soldado e não uma santa.

Eu devia ter desconfiado daquela espada!

Disse a ela:

- Minha filha, eu comprei a escultura de uma santa então, quando você quiser pedir alguma coisa, peça para a santa. Reze minha filha, e acredite! Será difícil voltar lá, próximo da Rússia, para reclamar.

Se ela tem rezado ou não, não sei. O que sei é que a santa está lá, em sua casa.


domingo, 19 de março de 2017

ESPETÁCULO (2)

Vi um brilho, algo emitia pequenos raios em uma folha. Ventava um pouco. A cada pequena rajada de vento, daquele ponto irradiava luzes. Por um tempo, fiquei observando aquela dança da folha com os intercalados de um feixe de luminosidade. Em determinada posição da folha a luz se fazia presente. Curioso me aproximei, à medida que me aproximava o efeito luminoso se perdeu.

Aquela folha, tinha na sua extremidade final, as bordas voltadas levemente para cima onde se acomodou uma gotinha de orvalho. Era possível ver gotículas por toda a folha, presas as nervuras existentes. Certamente, algumas delas soltando-se, se juntaram com o movimento fornecido pelo vento e formaram aquela gota que brilhava; pequena e redonda. De perto, pude ver o balanço suave da folha que fazia com que a gota se movimentasse dançando perigosamente. Ao movimento da folha, ela se esticava um pouco e se posicionava novamente redonda em outro ponto. O sol da manhã mostrava toda a sua transparência e a *refração fazia aparecer este espectro de luzes quando longe. Ali, próximo, vi através dela, no pequeno espelho que se criara, o reflexo da própria árvore. Um universo imperceptível ao nosso lado.

Voltei ao ponto em que me encontrava antes para ver a luz multicor da gotinha, agora com o mistério desvendado. Não foi mais possível. Com certeza pelo movimento do Sol, mudando sua incidência sobre ela. Tentei movimentos laterais, dando passos para um lado e para o outro, na esperança de ver aquele minúsculo facho de luz. Inútil!

O vento parece estar aumentando. Foco meu olhar na folha e em sua hóspede. Aproximo-me novamente. Os movimentos, neste instante, são mais bruscos. A gota descontrolada, a cada movimento da folha se alonga mais indo de um lado para o outro. De repente, uma rajada de vento descendente abaixou a folha de tal forma que a gotinha não encontrou sustentação.

Caiu.

Fiquei parado, perplexo. Assisti o Universo se apresentando sem custo algum em um espetáculo particular. Os personagens, atores renomados da Natureza.

Eu, um privilegiado!


sábado, 18 de março de 2017

VOU TENTAR AMANHÃ (2)

Estava vendo a chuva cair, quando um sentimento nostálgico me invadiu, no momento em que me preparava para escrever meu texto diário.

Chuva que lembra lágrimas.

Falando muito da chuva nestes tempos de chuvas farturentas, nada mais natural. Melhor assim que assado. É de manhã, a tarde, a noite e madrugada a fora. São Pedro deixou a torneira celestial aberta.

A insatisfação nossa de cada dia se posicionando de forma errada, na hora errada, contra a coisa errada.

Por sorte, demorei um pouco mais a levantar-me da cadeira onde estava e pude sentir um vento que chegava empurrando as nuvens e abrindo brechas para um sol tímido se achegar. Sorte minha! A nostalgia me abandonou. Com a fuga das nuvens o sol se tornou absoluto: Rei!

Minhas ideias se foram com as nuvens. E agora?

Agora, sentado em frente meu computador, fico com os olhos perdidos, um pouco na tela, um pouco no teclado. Meus dedos em busca da primeira letra, a primeira palavra para romper definitivamente com este marasmo, esta paradeira motivacional. Reposiciono alguns objetos que cercam o computador, em uma tentativa de organizar o que não se organizará jamais.

Cadê assunto?

Preciso entender a lógica do escritor. Isto é, se existe esta lógica. Existe mesmo é a inspiração que, definitivamente, não tem nada com a lógica no seu primeiro momento. Preciso da facilidade do cronista diário. Preciso de muito mais.

Preciso que me perdoem meus amigos. Vou tentar amanhã!


sexta-feira, 17 de março de 2017

VIAGEM PERDIDA (Mario Quintana) (2)

Fiz uma viagem a Porto Alegre nos anos 80 (1985?) para visitar Mário Quintana, o poeta. Nesta época viajava quase todo mês a Curitiba e, em uma destas viagens, resolvi repentinamente conhecer o poeta. Como seria uma longa viagem, deixei meu carro em um estacionamento. Tomei um ônibus noturno e fui em busca de Porto Alegre conhecer meu chara. Estas atitudes impensadas que, todos nós, nos permitimos alguma vez.

Ele estava morando no Porto Alegre Residence, um apart-hotel no centro da cidade, onde o viveu até sua morte. E eu, estava em busca de mais conhecimento junto a este *apóstolo da poesia.

Viagem longa onde deixei a imaginação dar seus voos em como seria este encontro.

Quantas vezes nos decepcionamos na vida?
Muitas!
Poucas!

Não está interessando neste momento, mas naquele momento, naquele dia, naquela hora interessou. Um porteiro educado me informava que o poeta não estava recebendo visitas porque seu estado de saúde não andava bem. Vi-me, frente ao porteiro, insistindo que viera de longe, quase 2000 Km, aproximadamente, desde Ribeirão Preto.

Disse:

- Você não me faria o favor de ligar ao apartamento explicando minha viagem com este único objetivo: conhecer o poeta?

- Vou tentar, mas a sobrinha dele não está permitindo visitas. – respondeu.

- Vou agradecer sua atenção! – enfatizei.

Fiquei atento a conversa, ele tentando explicar minha visita e eu, percebendo as negativas do outro lado. Frustrante!

Desligou e disse:

- Infelizmente o senhor não vai conseguir visitá-lo.

Fiquei parado alguns minutos digerindo aquele não tão definitivo. Tão fora do contexto onde me inseria. Pensei: “O que fazer?”.

Voltei à rodoviária, voltei a Curitiba, voltei para casa.

Com quase 87 anos, Mario Quintana, faleceu em Porto Alegre no dia 5 de maio de 1994, deixou o mortal para continuar no imortal de sua obra. Fantástico!

Nossa diferença é imensa. Começa no nome, seu nome é sem acento desde a certidão de nascimento. Só um Mario assim para ser Quintana. Não se casou acredito eu, porque não trairia a poesia jamais. Então, quando dizem da sua solidão, não sabem do seu amor pelo verso, pela estrofe, pelo poema. Loucuras de um poeta!

Preciso, com certa urgência, ler toda a sua obra.


*Apóstolo – s.m. - Aquele que se dedica à propagação e defesa de uma doutrina: apóstolo do socialismo. Fonte - http://www.dicio.com.br/apostolo/


quinta-feira, 16 de março de 2017

FRAGMENTOS (2)

Faz da tua vida motivo de glórias,

não de lembranças.

Lembranças....!?

Meu tempo não tem lembranças,

existem registros,

episódios.

Lembranças haverão de me acudir no dia da minha morte.

Vivo ocupado em sonhos

que atropelam minhas lembranças.

Não tenho lembranças de minha mãe,

pois a vejo tocando, escrevendo, falando...

nem de meu pai,

que ainda me acompanha em pescarias.

Não tenho lembranças do meu filho Paulo Ricardo,

ouço sempre o barulho estalado da chupeta em sua boca.

Não, não tenho lembranças,

tenho uma vontade de chorar contida.


quarta-feira, 15 de março de 2017

FELICIDADE (2)

Onde está a felicidade que assistimos nos filmes água com açúcar?

Tudo parece agir contra a felicidade senão vejamos: a falta de dinheiro, a falta de educação, a falta de cultura, a falta da família, por causa da família, por causa do dinheiro, pelo excesso de conhecimento, pela educação que beira o rebuscamento.

É bastante conflitante o acordo entre as coisas para que alguém possa dizer: “Sou feliz!”. Melhor ainda: “Sou feliz por causa disto!”.

Ter ou não ter determinadas coisas como: bens materiais, conhecimentos culturais, não influenciam na felicidade de ninguém. Estou acreditando que a felicidade tem um tempo de medida; é o tempo que uma pessoa consegue manter-se nesta condição de “Feliz” por mais tempo e, como esta mesma pessoa recupera a sensação de ser feliz mais rapidamente do que outras.

Opa!

É aí o caminho para a felicidade. Organizar a vida para que se possa usufruir o máximo de tempo em contato com a felicidade. O resto é comércio.

Felicidade é um estado de espírito que eleva a nossa condição de pobres mortais ao estágio de semideuses. Porque não? O maior barato é ser um semideus com pouco dinheiro no bolso, com uma educação mediana, uma educação classe média se é que posso usar a comparação e, ser feliz.

Analisando todas as informações a felicidade está, no meu entender, de alguma forma ligada a nossa capacidade de fazer amigos. Alguém que consegue manter um grande número de amigos tem o poder de transmitir a felicidade. Simples: a felicidade atrai pessoas. Parece-me que a pessoa feliz tem uma aura de felicidade que toca a quem dela se aproxima. E, quem a toca, nem que seja resvalando levemente quer ficar ao redor para suprir-se desta pessoa iluminada. Feliz!

O amor na sua forma mais excitante, que seria a paixão, tem um período de certa forma curto. Fica neste momento o amor, o encantamento que une duas pessoas e que sabemos, permanece, quando o sentimento de amizade entre estas duas pessoas for verdadeiramente real. Neste momento, a amizade entre duas pessoas é entendida como a relação de amizade no seu mais alto estágio. Não queremos nos separar de um amigo (a) assim: somos felizes! Estamos envolvidos na aura de felicidade do outro e vice versa.

Aí sim, o amor pode ser eterno.